“No meu entender”... Está difícil entender Jair Bolsonaro
Retrospectiva das controvérsias
“No meu entender”... Está difícil entender Jair Bolsonaro
Geralmente precedidas por essa expressão, declarações do presidente revelam um “entender” ora muito inadequado, ora claramente equivocado sobre o que está se passando no Brasil e no mundo durante crise do coronavírus
Bolsonaro na noite de domingo (15), em entrevista à CNN Brasil: “Há certas medidas que vêm sendo tomadas pelo governadores e eles têm autoridade de fazer isso aí. [...] Quando você proíbe jogo de futebol, entre outras coisas, você está partindo para o histerismo, no meu entender.” No entender dele.
Notem bem: o que todas essas declarações têm em comum? Todas foram dadas, em menos de dez dias, pelo mesmo autor, Jair Bolsonaro, com base em um “entender” próprio, pessoal e muito singular dele mesmo sobre os fatos à sua volta. Fatos graves, mas desagravados por ele. Em comum, ainda, tais declarações do presidente revelam um “entender” ora muito inadequado, ora claramente equivocado sobre o que está se passando no Brasil e no mundo.
Enquanto Bolsonaro segue demonstrando essa crônica dificuldade em entender o que ocorre no mundo exterior, segue cada vez mais difícil tentarmos entender o que se passa no seu mundo interior: a insondável mente do presidente. Constantes confusões, contradições e incoerências têm dado a tônica de suas ações e declarações desde que chegou ao Planalto. Mas, nas últimas duas semanas, com a escalada das crises sanitária e econômica, esses traços têm sido acentuados – ou ficado ainda mais evidentes.
Senão vejamos:
O EMBARQUE PARA OS EUA: “PARTICIPEM DO ATO”
No dia 7 de março, Bolsonaro embarca para uma série de compromissos em solo norte-americano. Antes disso, em discurso em uma base militar em Roraima, faz menção direta aos atos de rua programados por movimentos de direita para o dia 15 de março, em defesa de seu governo e contra os outros dois Poderes constituídos da República: o Legislativo e o Judiciário.
Aí o presidente embarca. Já em Miami, no dia 10 de março, dá declarações no sentido de minimizar não só os abalos econômicos mundiais, por conta da “guerra dos preços do petróleo”, que já começam a impactar profundamente o mercado financeiro nacional. De modo ainda mais incrível, minimiza também a gravidade da crise mundial do coronavírus. Para Bolsonaro, nada digno de preocuação real, em nenhuma das duas frentes:
“Obviamente temos no momento uma crise, uma pequena crise. No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala, ou propaga, pelo mundo todo”. Olha a expressão aí de novo: “no meu entender”.
O “detalhe” é que, àquela altura, a epidemia do coronavírus (tecnicamente, assim ainda era tratada) já fizera mais de 4 mil vítimas mundo afora e começava a adentrar temerariamente o território brasileiro.
No dia seguinte (12), em sua tradicional live de quinta-feira, Bolsonaro aparece, de maneira surpreendente, usando uma máscara asséptica, para evitar contágio. E, para surpresa ainda maior, o discurso de Bolsonaro, na forma, adota tom institucional; no conteúdo, contradiz o que ele mesmo dissera dois dias antes: agora é preciso se prevenir.
Contradições à parte, os pronunciamentos do dia 12 caíram como um bálsamo de bom senso e de esperança sobre quem monitorava a situação: parecia que os fatos haviam se imposto e, finalmente, o presidente compreendera a real dimensão do problema e, sobretudo, o papel institucional que lhe cabe neste momento, como referência para a qual se voltam os olhares de todos os brasileiros.
Só que não.
CHEGA DOMINGO: “PENSANDO BEM, VOU PRA RUA COM VOCÊS”
Aí chega o domingo (15) e o que faz Jair Bolsonaro? Exatamente o contrário do que ele mesmo havia recomendado. Não só apoiou como participou pessoalmente do protesto nas proximidades do Palácio do Planalto, em Brasília, tocando, cumprimentando e manuseando os celulares de populares para fazer selfies. Um risco epidemiológico ambulante, na pessoa do próprio presidente da República, aquele de quem sempre se esperam os melhores exemplos.
Em um vídeo gravado durante o ato, o presidente chegou a dizer que aquilo “não tem preço”. Tem sim. O preço de tamanha leviandade podem ser vidas humanas. Não só aquelas vidas específicas, dos donos das mãos tocadas por ele. Mas aquelas que podem se perder pelo péssimo exemplo deixado pelo chefe do governo.
Ao proceder daquela maneira, qual mensagem Bolsonaro transmitiu à população? A de que a pandemia não é tudo isso, não é tão grave assim, que as orientações das autoridades sanitárias (inclusive as do seu próprio governo) são exageradas e podem perfeitamente ser ignoradas.
Rezando pela cartilha do populista clássico, pouco importa o exemplo, tampouco o papel institucional. O que interessa é alimentar o seu prestígio, estimular o culto popular à sua personalidade. O que importa é cair nos braços, abraços e selfies do povão, mesmo sendo potencialmente um agente de disseminação de uma doença que pode ser fatal.
Falando em populismo, a atitude de Bolsonaro pode ser considerada duplamente irresponsável, pois, para além dos riscos epidemiológicos, o presidente acabou apoiando de corpo e alma um protesto cuja pauta era nitidamente inconstitucional: pelo fechamento do Congresso Nacional e da Suprema Corte, com fartura de faixas e cartazes gritando por um “novo AI-5”.
Mas piorou.
“HISTERIA”, FUTEBOL E FESTINHA: O VÍRUS AGRADECE
Em entrevista à CNN Brasil na noite daquele domingo, o presidente voltou a ser aquele primeio Bolsonaro em relação à crise do coronavírus: negligente, distante, indiferente. Chegou a criticar a suspensão de campeonatos de futebol – talvez para que ele possa continuar indo aos estádios para praticar populismo com o Moro.
Nesse sentido, Bolsonaro convocou e presidiu uma coletiva de imprensa na tarde desta quarta-feira (18). Mas esta também trouxe muitos pontos que são ainda mais difíceis de entender na atitude de Bolsonaro e no discurso presidencial...
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.