Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Retrospectiva das controvérsias

“No meu entender”... Está difícil entender Jair Bolsonaro

Geralmente precedidas por essa expressão, declarações do presidente revelam um “entender” ora muito inadequado, ora claramente equivocado sobre o que está se passando no Brasil e no mundo durante crise do coronavírus

Publicado em 20 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

20 mar 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Bolsonaro: entendimento limitado sobre a crise em suas muitas dimensões Crédito: Amarildo
Bolsonaro, no dia 9 de março, durante pronunciamento para empresários brasileiros, em Miami: “A questão do coronavírus também, no meu entender, está superdimensionado, o poder destruidor desse vírus, então talvez esteja sendo potencializado até por questão econômica”. No entender dele.
Bolsonaro na noite de domingo (15), em entrevista à CNN Brasil: “Há certas medidas que vêm sendo tomadas pelo governadores e eles têm autoridade de fazer isso aí. [...] Quando você proíbe jogo de futebol, entre outras coisas, você está partindo para o histerismo, no meu entender.” No entender dele.
Bolsonaro na manhã de terça-feira (17), em entrevista à rádio Super Tupi, do Rio de Janeiro: “Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar, e muito, a nossa economia”. No entender dele.
Notem bem: o que todas essas declarações têm em comum? Todas foram dadas, em menos de dez dias, pelo mesmo autor, Jair Bolsonaro, com base em um “entender” próprio, pessoal e muito singular dele mesmo sobre os fatos à sua volta. Fatos graves, mas desagravados por ele. Em comum, ainda, tais declarações do presidente revelam um “entender” ora muito inadequado, ora claramente equivocado sobre o que está se passando no Brasil e no mundo.
Enquanto Bolsonaro segue demonstrando essa crônica dificuldade em entender o que ocorre no mundo exterior, segue cada vez mais difícil tentarmos entender o que se passa no seu mundo interior: a insondável mente do presidente. Constantes confusões, contradições e incoerências têm dado a tônica de suas ações e declarações desde que chegou ao Planalto. Mas, nas últimas duas semanas, com a escalada das crises sanitária e econômica, esses traços têm sido acentuados – ou ficado ainda mais evidentes.
Senão vejamos:

O EMBARQUE PARA OS EUA: “PARTICIPEM DO ATO”

No dia 7 de março, Bolsonaro embarca para uma série de compromissos em solo norte-americano. Antes disso, em discurso em uma base militar em Roraima, faz menção direta aos atos de rua programados por movimentos de direita para o dia 15 de março, em defesa de seu governo e contra os outros dois Poderes constituídos da República: o Legislativo e o Judiciário.
Não satisfeito, faz uma convocação direta a seus apoiadores, com palavras que não dão margem interpretativa: “Então participem”, exorta ele, textualmente. Guarde essas palavras. Tornaremos a elas. Por ora lembremos que, no fim de fevereiro, durante a terça-feira de carnaval, Bolsonaro já havia compartilhado mensagens convocatórias para o ato com contatos dele pelo WhatsApp.

EM MIAMI: “FANTASIA DA MÍDIA”

Aí o presidente embarca. Já em Miami, no dia 10 de março, dá declarações no sentido de minimizar não só os abalos econômicos mundiais, por conta da “guerra dos preços do petróleo”, que já começam a impactar profundamente o mercado financeiro nacional. De modo ainda mais incrível, minimiza também a gravidade da crise mundial do coronavírus. Para Bolsonaro, nada digno de preocuação real, em nenhuma das duas frentes:
“Obviamente temos no momento uma crise, uma pequena crise. No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala, ou propaga, pelo mundo todo”. Olha a expressão aí de novo: “no meu entender”.
O “detalhe” é que, àquela altura, a epidemia do coronavírus (tecnicamente, assim ainda era tratada) já fizera mais de 4 mil vítimas mundo afora e começava a adentrar temerariamente o território brasileiro.
Não só isso: na véspera, uma segunda-feira (9), o Ibovespa sofreu seu maior tombo em um só dia de pregão desde 1998, influenciado pela guerra de preços do petróleo entre Arábia Saudita e Rússia e pela escalada de pânico em torno do coronavírus. No mesmo dia, o nosso risco-país teve a maior alta desde 2008. Para Bolsonaro, nada de mais: as apreensões com o vírus e com a economia estavam “superdimensionadas”. Ou era ele quem as estava subestimando?

O RETORNO AO BRASIL: CORONAVÍRUS NO PLANALTO

Aí, no dia 11 de março, Bolsonaro volta ao Brasil, com a sua numerosa comitiva. E, com eles, aparentemente, chega um choque de realidade, por motivo de força maior: o secretário de Comunicação do governo, Fábio Wajngarten, é diagnosticado com coronavírus e colocado em quarentena. Além dele, vários membros da comitiva presidencial testam “positivo” para o Covid-19 – em número que hoje supera dez casos confirmados.
A mesma doença cuja gravidade era renegada por Bolsonaro na véspera entra agora no Palácio do Planalto pela rampa. Naquela mesma quarta-feira (11), em coletiva para a imprensa mundial, a OMS (Organização Mundial da Saúde) declara o coronavírus, oficialmente, como uma pandemia.

LIVE E PRONUNCIAMENTO: “NÃO PROTESTEM”

No dia seguinte (12), em sua tradicional live de quinta-feira, Bolsonaro aparece, de maneira surpreendente, usando uma máscara asséptica, para evitar contágio. E, para surpresa ainda maior, o discurso de Bolsonaro, na forma, adota tom institucional; no conteúdo, contradiz o que ele mesmo dissera dois dias antes: agora é preciso se prevenir.
No mesmo dia, em pronunciamento à nação em cadeia de rádio e TV, o presidente desencoraja manifestantes a participarem das manifestações de rua de seu interesse marcadas para o domingo seguinte (15), pois tais aglomerações populares poderiam gerar, palavras dele, “uma explosão de infectados”. Também disse que já tinha sido dado “um tremendo recado ao Parlamento” – caindo aí em outra contradição, pois vinha mantendo a versão (falsa) de que os tais atos não seriam contra o Congresso.
Contradições à parte, os pronunciamentos do dia 12 caíram como um bálsamo de bom senso e de esperança sobre quem monitorava a situação: parecia que os fatos haviam se imposto e, finalmente, o presidente compreendera a real dimensão do problema e, sobretudo, o papel institucional que lhe cabe neste momento, como referência para a qual se voltam os olhares de todos os brasileiros.
Só que não.

CHEGA DOMINGO: “PENSANDO BEM, VOU PRA RUA COM VOCÊS”

Nos dias seguintes, por ter tido contato com pessoas infectadas pelo coronavírus e por ter acabado de chegar de viagem internacional, Bolsonaro, por recomendação de todas as autoridades sanitárias mundiais, inclusive as do seu próprio governo, deveria ficar em recolhimento e evitar contato físico com outras pessoasSeu primeiro teste para o Covid-19 havia dado negativo. Mas a contraprova só sairia depois de domingo (15). O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por exemplo, só foi “pego” no segundo teste. Ou seja: Bolsonaro não tinha como saber com segurança se estava ou não infectado.
Aí chega o domingo (15) e o que faz Jair Bolsonaro? Exatamente o contrário do que ele mesmo havia recomendado. Não só apoiou como participou pessoalmente do protesto nas proximidades do Palácio do Planalto, em Brasília, tocando, cumprimentando e manuseando os celulares de populares para fazer selfies. Um risco epidemiológico ambulante, na pessoa do próprio presidente da República, aquele de quem sempre se esperam os melhores exemplos.
Agindo de maneira tão inconsequente, Bolsonaro contrariou as recomendações das autoridades sanitárias do mundo todo, as orientações do próprio Ministério da Saúde e sua própria orientação dirigida ao povo brasileiro, três dias antes. Ignorou, desautorizou e debochou das determinações de sua equipe ministerial (a mesma à qual, três dias depois, renderia homenagens excessivas em coletiva de imprensa).
Ao longo daquele domingo, enquanto crescia no Brasil a apreensão relacionada ao coronavírus, o presidente da República tinha outras preocupações prioritárias: encheu a sua conta oficial no Twitter com 42 posts sobre as mesmas manifestações que, segundo sua versão oficial, ele não convocou.
Em um vídeo gravado durante o ato, o presidente chegou a dizer que aquilo “não tem preço”. Tem sim. O preço de tamanha leviandade podem ser vidas humanas. Não só aquelas vidas específicas, dos donos das mãos tocadas por ele. Mas aquelas que podem se perder pelo péssimo exemplo deixado pelo chefe do governo.

MENSAGEM ERRADA NO PIOR MOMENTO

Ao proceder daquela maneira, qual mensagem Bolsonaro transmitiu à população? A de que a pandemia não é tudo isso, não é tão grave assim, que as orientações das autoridades sanitárias (inclusive as do seu próprio governo) são exageradas e podem perfeitamente ser ignoradas.
Rezando pela cartilha do populista clássico, pouco importa o exemplo, tampouco o papel institucional. O que interessa é alimentar o seu prestígio, estimular o culto popular à sua personalidade. O que importa é cair nos braços, abraços e selfies do povão, mesmo sendo potencialmente um agente de disseminação de uma doença que pode ser fatal.
Falando em populismo, a atitude de Bolsonaro pode ser considerada duplamente irresponsável, pois, para além dos riscos epidemiológicos, o presidente acabou apoiando de corpo e alma um protesto cuja pauta era nitidamente inconstitucional: pelo fechamento do Congresso Nacional e da Suprema Corte, com fartura de faixas e cartazes gritando por um “novo AI-5”.
Mas piorou.

“HISTERIA”, FUTEBOL E FESTINHA: O VÍRUS AGRADECE

Em entrevista à CNN Brasil na noite daquele domingo, o presidente voltou a ser aquele primeio Bolsonaro em relação à crise do coronavírus: negligente, distante, indiferente. Chegou a criticar a suspensão de campeonatos de futebol – talvez para que ele possa continuar indo aos estádios para praticar populismo com o Moro.
No lugar da “fantasia propagada pela grande mídia”, passou a atacar a “histeria” (ou "histerismo") e o “alarmismo” causado, “no seu entender”, por medidas adotadas por governadores, numa descabida tentativa de politizar uma questão de saúde pública em que o bem-estar de todos os brasileiros e o interesse nacional estão em jogo.
Já na manhã de terça-feira (17), falando à rádio Super Tupi, superou-se: além de nova alfinetada em governadores por mera rivalidade política totalmente deslocada no momento, chegou ao cúmulo de enfatizar que planejava promover uma tradicional festinha para comemorar o seu aniversário e o da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, neste fim de semana, passando de novo a mensagem errada para o povo que, apreensivo, volta-se para o seu líder neste momento e se espelha no que ele tem a dizer.
Depois disso, dois ministros de Estado foram confirmados com coronavírus: Augusto Heleno (GSI) e Bento Albuquerque (Minas e Energia). Foi necessário acabar com a brincadeira e enfim “entender” de verdade a situação.
Nesse sentido, Bolsonaro convocou e presidiu uma coletiva de imprensa na tarde desta quarta-feira (18). Mas esta também trouxe muitos pontos que são ainda mais difíceis de entender na atitude de Bolsonaro e no discurso presidencial...
Continua.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Rio Branco-ES x Real Noroeste, pela Série D do Brasileirão 2026
Rio Branco vence Real Noroeste e sobe para vice-liderança do Grupo 12 da Série D
Curva da Jurema. Local impróprio para banho
Mesmo impróprias, praias de Vitória recebem banhistas neste domingo (26)
Imagem de destaque
Estamos perto de desvendar o mistério do 9º planeta do Sistema Solar?

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados