A proposta é seguir um Cristo que não estabelece triagem para o amor. Acolher os vulneráveis - pobres, marginalizados, a comunidade LGBTQIA+, negros e vítimas de intolerância - é o cerne da missão.
Há uma necessidade de viver uma fé encarnada, de denotada espiritualidade que lê os "sinais dos tempos", conectada à realidade do povo, que entende que a fome, o racismo e a desigualdade são pecados estruturais que a fé deve combater.
Em oposição a essa visão progressista e humanitária, surge a pregação que mobiliza multidões nas redes sociais, em que a profundidade teológica cede lugar a uma retórica de segregação.
Com isso, estabelece-se a manutenção de preconceitos, propagando-se discursos que reforçam o machismo, a LGBTfobia e a intolerância religiosa, distanciando-se do Cristo acolhedor para abraçar um "Cristo juiz", utilizado como arma contra quem não se encaixa em padrões conservadores rígidos.
Os dias atuais não suportam uma fé irreflexiva, em que a espiritualidade proposta é frequentemente baseada no medo e na obediência cega, ignorando as nuances sociais e históricas das opressões. É uma fé que não questiona as estruturas de poder, mas as utiliza para validar o preconceito.
Nessa esteira, o perigo reside na desumanização do "outro", pois quando a religião é usada para marcar quem é "puro" e quem é "abjeto", ela deixa de ser um instrumento de paz para se tornar uma ferramenta de exclusão simbólica e social, alimentando uma pulsão de extermínio da diversidade.
O embate entre a postura da CNBB e a de figuras como alguns líderes religiosos não é apenas uma disputa de opiniões, mas uma escolha sobre o futuro da convivência democrática e cristã no Brasil. A verdadeira fé não pode ser um escudo para o racismo ou para o ódio.
Enquanto a CNBB convida à construção de pontes e ao diálogo com a realidade sofrida do povo, discursos de intolerância cavam fossos cada vez mais profundos. Para que a religião cumpra seu papel de promover a vida, ela deve abandonar a "estratégia de extermínio" e abraçar, de fato, a radicalidade do amor que não exclui ninguém.