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Verônica Bezerra

A fé que liberta x a fé que exclui

Enquanto a CNBB convida à construção de pontes e ao diálogo com a realidade sofrida do povo, discursos de intolerância cavam fossos cada vez mais profundos

Publicado em 04 de Maio de 2026 às 02:30

Públicado em 

04 mai 2026 às 02:30
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

O cenário religioso brasileiro contemporâneo apresenta um contraste drástico entre a missão institucional da Igreja e o fenômeno de algumas lideranças carismáticas. De um lado, temos as diretrizes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), atualizadas pela 62ª Assembleia Geral, que ocorreu de 15 a 24 de abril de 2026, no Santuário Nacional de Aparecida (SP), com a presença de mais de 350 bispos para definição de novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE) da Igreja no Brasil que buscam resgatar a essência do Evangelho voltada à justiça social. 

Do outro, figura a postura de expoentes, que propagam uma fé superficial e “instagramável”, cujo discurso, sob a roupagem de "zelo doutrinário", flerta perigosamente com a exclusão e o preconceito.

A CNBB tem reforçado a necessidade de uma Igreja "em saída", termo caro ao Papa Francisco. Suas cartas e exortações não são meros documentos burocráticos, mas chamados para que a fé não seja um ópio, mas um combustível para a mudança social incremental.
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A proposta é seguir um Cristo que não estabelece triagem para o amor. Acolher os vulneráveis - pobres, marginalizados, a comunidade LGBTQIA+, negros e vítimas de intolerância - é o cerne da missão.


Há uma necessidade de viver uma fé encarnada, de denotada espiritualidade que lê os "sinais dos tempos", conectada à realidade do povo, que entende que a fome, o racismo e a desigualdade são pecados estruturais que a fé deve combater.


Em oposição a essa visão progressista e humanitária, surge a pregação que mobiliza multidões nas redes sociais, em que a profundidade teológica cede lugar a uma retórica de segregação.


Com isso, estabelece-se a manutenção de preconceitos, propagando-se discursos que reforçam o machismo, a LGBTfobia e a intolerância religiosa, distanciando-se do Cristo acolhedor para abraçar um "Cristo juiz", utilizado como arma contra quem não se encaixa em padrões conservadores rígidos.

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Os dias atuais não suportam uma fé irreflexiva, em que a espiritualidade proposta é frequentemente baseada no medo e na obediência cega, ignorando as nuances sociais e históricas das opressões. É uma fé que não questiona as estruturas de poder, mas as utiliza para validar o preconceito.


Nessa esteira, o perigo reside na desumanização do "outro", pois quando a religião é usada para marcar quem é "puro" e quem é "abjeto", ela deixa de ser um instrumento de paz para se tornar uma ferramenta de exclusão simbólica e social, alimentando uma pulsão de extermínio da diversidade.


O embate entre a postura da CNBB e a de figuras como alguns líderes religiosos não é apenas uma disputa de opiniões, mas uma escolha sobre o futuro da convivência democrática e cristã no Brasil. A verdadeira fé não pode ser um escudo para o racismo ou para o ódio.


Enquanto a CNBB convida à construção de pontes e ao diálogo com a realidade sofrida do povo, discursos de intolerância cavam fossos cada vez mais profundos. Para que a religião cumpra seu papel de promover a vida, ela deve abandonar a "estratégia de extermínio" e abraçar, de fato, a radicalidade do amor que não exclui ninguém.


Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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