Neste dia de devoção à Nossa Senhora da Penha, a padroeira do Espírito Santo, o fervor religioso que arrasta multidões ao Convento contrasta bruscamente com a realidade árida que se estende para além de seus muros de pedra. Enquanto fiéis sobem a ladeira em busca de milagres, uma pergunta incômoda paira sobre o cenário capixaba: se Maria fosse a gestora das políticas públicas em nosso Estado, como ela agiria diante da vulnerabilidade e da violência que nos assolam?
É um exercício de imaginação política e teológica, mas extremamente necessário. Maria não foi apenas a figura silenciosa das pinturas sacras, ela foi uma mulher da periferia, consciente de seu papel em um projeto ousado de libertação humana.
Hoje, o Espírito Santo enfrenta uma realidade onde o "mínimo necessário" é um luxo para muitos. Temos uma parcela significativa da população que nem sequer compreende que a dignidade é um direito fundamental, e não uma concessão governamental.
Uma gestão inspirada na figura da Penha não se perderia em burocracias frias ou no "silêncio omisso". Maria, como vimos nas Bodas de Caná, tinha o "olhar de gestora", pois ela percebeu a escassez antes mesmo que o problema se tornasse um caos público. Ela agiu com autoridade, não para exercer poder, mas para servir à vida.
Certamente Ela proporia políticas públicas de acolhimento, que numa gestão mariana priorizaria a segurança alimentar e o saneamento básico como urgências inegociáveis. E ainda educação para o direito, com objetivo de ensinar ao povo que viver com dignidade é um direito seria o primeiro passo de uma política de conscientização.
Entrementes, o ponto mais sensível e urgente dessa reflexão é a epidemia de feminicídio que sangra o solo capixaba. Mulheres são exterminadas simplesmente por serem mulheres. Como a "Mãe das Alegrias" reagiria ao ver suas filhas sendo assassinadas no cerne de seus lares?
Maria sabia silenciar para ouvir, mas nunca silenciou diante da injustiça. No contexto atual, sua postura seria de intolerância absoluta contra a violência de gênero. Ela não aceitaria a morosidade do sistema que deixa mulheres desprotegidas sob medidas protetivas que são apenas papéis. E ainda, assim como ordenou "fazei tudo o que Ele vos disser", ela convocaria as instituições a uma transformação cultural profunda, combatendo a raiz do extermínio feminino.
Nossa Senhora, que para nós é da Penha, aceitou o desafio de gerar a vida em um contexto de perseguição e incerteza. O Espírito Santo, que não é o de Deus, mas o Estado Federativo, precisa, hoje, de gestores que tenham essa mesma coragem de "topar o projeto ousado" de priorizar a humanidade sobre as estatísticas econômicas.
Não podemos celebrar a padroeira no alto do morro enquanto, lá embaixo, a vulnerabilidade social e o sangue das mulheres são tratados como danos colaterais da gestão pública. A verdadeira devoção à Penha exige mais do que orações, exige o compromisso político de transformar o Estado em um lugar onde a dignidade não seja um milagre, mas uma prática diária.
Afinal, uma mãe que protege seus filhos não se calaria diante de tanta dor.