A fé em Nossa Senhora da Penha segue atravessando gerações e mobilizando milhares de devotos no Espírito Santo. Reconhecida como uma das mais antigas e importantes festas marianas do Brasil, a devoção à padroeira inspira histórias de superação, agradecimento e esperança.
Entre essas manifestações de religiosidade, um grupo de cerca de 90 peregrinos de Aracruz, no Norte do Espírito Santo, se prepara para uma caminhada de mais de 80 quilômetros até o Convento da Penha, em Vila Velha. A saída está marcada para a noite de sábado (11), com chegada prevista para segunda-feira (13), após horas de estrada, oração e companheirismo.
Fé que transforma vidas
Para muitos participantes, a peregrinação vai muito além do desafio físico. É o caso de Maria Eliza, que há mais de uma década encontra na caminhada um motivo de renovação espiritual e de força para seguir em frente.
A devoção dela ganhou ainda mais sentido após enfrentar um câncer em estágio avançado. Em meio ao tratamento e às limitações impostas pela doença, ela encontrou na fé a força necessária para continuar.
Os médicos, no início, falaram que era um sarcoma em estágio avançado. Mas, como sou devota de Nossa Senhora, fiz um pedido a ela que permitisse que eu vivesse mais um pouco. E eu estou aqui. Em fevereiro do ano passado, foi a minha última quimioterapia. Estou em remissão do câncer. O caminho do Convento veio para completar isso
Segundo ela, a caminhada se tornou também um gesto coletivo de fé.
O incentivo. E tem horas que a gente começa a rezar com eles. Está difícil? Vamos rezar que a coisa melhora e melhora. Entendeu? Então a gente tem esse apoio também de outras pessoas que passam pela gente
Um percurso de esforço, organização e solidariedade
A peregrinação começa às 22h de sábado, com o grupo percorrendo cerca de 44 quilômetros no primeiro dia. Ao longo do trajeto, pontos de apoio são organizados em comunidades como Grapoama, Santa Rosa e Biriricas, onde os fiéis fazem paradas para descanso e alimentação. A estrutura conta ainda com apoio da Prefeitura de Aracruz, ambulância, Polícia Militar dando segurança e acompanhamento de voluntários.
A peregrinação em si só, a peregrinação, ela é meio puxada. Então a gente precisa ter um suporte para que a gente consiga realizar isso com segurança e a logística necessária
Ao longo desses anos de caminhada, muitas coisas foram vistas, momentos foram vividos, histórias foram conhecidas, e algumas destas se tornaram marcantes.
Certa vez, uma pessoa nos abordou na Serra, aparentemente um andarilho. Ele estava com alguns problemas, começou a conversar e seguiu com a gente até o Convento. Nós tínhamos uma camisa do grupo que tinha ficado de reserva, demos a camisa para ele. Ele ficou tão feliz. Nós não vimos mais esse rapaz [...] ele ouviu muita coisa relacionada à nossa crença religiosa, porque ele estava precisando daquilo. Parece que foi uma coisa boa para ele e para a gente, porque a gente viu a necessidade daquela pessoa de ter esse conforto espiritual
Faça chuva ou faça sol
E mesmo com a previsão do tempo indicando chuva para o final de semana, para os participantes, não há previsão que impeça a caminhada. Chuva ou sol fazem parte do percurso e são vistos como parte do sacrifício e da devoção.
A gente não escolhe o tempo. Se tiver chuva, vamos na chuva. Se tiver sol, vamos no sol
Mais do que uma caminhada de 80 quilômetros, a peregrinação representa uma experiência de fé coletiva, marcada por emoção, superação e devoção à Nossa Senhora da Penha. Para os fiéis, o destino final tem um significado ainda mais profundo.
A gente pensa que Nossa Senhora está esperando a gente lá. A mãe está esperando a gente na casa dela, para contemplar aquela beleza que é o convento lá em cima
É essa certeza que move cada passo, transforma o cansaço em esperança e faz da chegada não apenas o fim do trajeto, mas o encontro com a fé que sustenta toda a caminhada.