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Léo de Castro

Desenrola, Brasil: o país merece competência

O país está operando numa lógica que enriquece somente o sistema financeiro, criando uma sociedade indolente e rentista, que não investe na produção, estimulada a ganhar dinheiro sem trabalhar

Publicado em 24 de Maio de 2026 às 04:30

Públicado em 

24 mai 2026 às 04:30
Léo de Castro

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Léo de Castro

O governo federal lançou no início de maio o chamado Desenrola 2.0, um programa emergencial de renegociação de dívidas, para aliviar o endividamento de famílias e empresas e reduzir a inadimplência recorde. 


É apenas mais um esparadrapo: uma agenda de pronto-socorro, para reinserir consumidores no mercado e aquecer o consumo de forma artificial e insustentável. Como diria o vice-presidente Marco Maciel, as consequências vêm depois.


O Desenrola é um remendo, não uma política estrutural para realmente enfrentar nossos desafios. Mais da metade dos lares está no limite da insolvência, como mostrou recente levantamento da empresa de pesquisas NIQ – NilsenIQ, publicada no Valor Econômico. 


Os números mostram que quase três quartos dos lares brasileiros estão desconfortáveis com a situação financeira e 54% estão no limite de virar insolvente. A região mais afetada é o Nordeste.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan durante assinatura da Medida Provisória referente ao Novo Desenrola Brasil
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, durante assinatura da Medida Provisória referente ao Novo Desenrola Brasil Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O governo tenta dar fôlego para o consumo de forma artificial enquanto acelera na expansão dos gastos públicos, pressionando os juros e o endividamento, num círculo vicioso. 


A tendência da dívida pública é de forte aceleração nos últimos três anos, chegando a 80,1% do PIB no primeiro quadrimestre deste ano. É o maior patamar de endividamento bruto do país em quase cinco anos. O governo gasta como se não houvesse amanhã, só que o amanhã chega. E chega não para o governo, mas para o povo, que é afetado no seu dia a dia – ele que é enganado e que paga a conta.


Sobram evidências de que a agenda pública das lideranças do país é inepta e inconsequente. É uma agenda de curtíssimo prazo, que ilude a população mais carente, justamente a que precisa se preocupar com a sobrevivência do dia a dia. Infelizmente, essa tem sido a prática de todos os governos do Brasil dos últimos anos. No ano eleitoral, o quadro se agrava.


Além disso, o governo também costuma agir de modo incoerente. Ele sabe que precisa enxugar gastos e buscar o equilíbrio fiscal. Sabe que deveria apoiar setores importantes da economia, como a indústria, que atua como o motor de toda a atividade econômica. Mas as medidas que adota são contraditórias e vão no sentido oposto. 

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Gastando além das possibilidades, o governo alimenta a alta dos juros, prejudicando os investimentos produtivos, atraindo capital especulativo, levando à supervalorização do câmbio e minando a competitividade de quem realmente produz no país.


Para coroar o teatro de absurdos, o governo resolve suspender a taxação de produtos importados manufaturados no limite de até US$ 50,00, a chamada Taxa das Blusinhas


Quem produz fora do Brasil paga zero imposto para vender aqui, e quem produz aqui tem que arcar com o inabalável Custo Brasil, uma conta de R$ 1,7 trilhão que vem crescendo ano a ano, sem que haja uma ação efetiva do poder público para reduzi-la. Esse custo, que abordamos aqui com frequência, faz com que todos os brasileiros paguem mais caro por tudo que é produzido no país.


Em vez de medidas estruturais, o governo segue adotando paliativos, como a isenção de IR, a suspensão das taxas de importação, subsídio aos combustíveis, renegociação de dívidas e ampliação do crédito, para impulsionar o consumo de forma artificial, aumentando o endividamento e contratando uma crise ainda maior para o ano que vem. Vimos algo parecido em 2014.


O endividamento do país é a grande fonte de nossos problemas. É inútil o governo falar em déficit primário, quando o déficit nominal, que realmente conta, acumula R$ 1,2 trilhão nos últimos 12 meses, o que equivale a 9,41% do PIB. 


Esse é o déficit acumulado do setor público no período de 12 meses encerrado em março. É o maior rombo fiscal anualizado da série histórica. Isso significa que o Brasil gastou R$ 1 trilhão apenas com os juros nominais da dívida pública.

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O país está operando numa lógica que enriquece somente o sistema financeiro, criando uma sociedade indolente e rentista, que não investe na produção, estimulada a ganhar dinheiro sem trabalhar. 


Isso nos condena ao subdesenvolvimento e à desigualdade de renda. O governo, que diz trabalhar pelos mais necessitados, faz justamente o contrário: enriquece os mais ricos. É sintomático que todo candidato a presidente da República coloque na agenda de prioridades uma visita à Faria Lima, para pedir a bênção ao sistema financeiro. Isso sem falar na ética pública. 


Nos três poderes, ao longo desses anos todos, vemos exemplos vergonhosos de absoluta ausência de decoro, com esposas de magistrados recebendo contratos milionários, dólares na cueca de lideranças parlamentares, mesada de banqueiros corruptos, desvio confessado de bilhões de estatais, prisões de autoridades que acabam se livrando com chicanas e tantos outros escândalos que se acumulam ao longo do tempo, incorporados de ao nosso cotidiano. 


A verdadeira campanha nacional deveria ser: Desenrola, Brasil! Livre-se dos maus governantes. Na próxima oportunidade, poderemos escolher melhor os nossos representantes que vão administrar o país. Nós brasileiros merecemos muito mais.

Léo de Castro

Empresario, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaco, aborda economia, inovacao, infraestrutura e ambiente de negocios.

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