A inauguração do Cais das Artes, no início de abril, foi uma das melhores notícias para Vitória e para o Espírito Santo, não somente para a cultura, mas também para o desenvolvimento econômico e social do Estado, incluindo turismo, serviços e qualidade de vida. A obra durou 16 anos, foi cercada por incertezas e críticas, mas normalmente é o que ocorre com empreendimentos ousados.
A exposição inaugural, “Amazônia”, com cerca de 200 fotografias de Sebastião Salgado, já sinaliza que entramos no circuito internacional de grandes exposições e artes cênicas. A exposição já passou por cidades como Paris, Londres, Roma, Milão, Rio e São Paulo e agora está ali na Enseada do Suá, aberta ao público.
Em recente passagem pelo Espírito Santo, o artista plástico carioca José Bechara, que acaba de doar ao Estado a monumental obra "Falta", com cerca de 60 toneladas, observou que a arte tem o poder de colocar cidades no mapa, literalmente. Quem digitar a palavra "Chicago" no Google Imagens, verá que o destaque é para a obra Cloud Gate, também conhecida como The Bean, de Anish Kapoor. A obra fica no Millennium Park, bem no centro de Chicago, e virou a sua referência global no principal sistema de busca do mundo.
Em Brumadinho, Minas Gerais, o Instituto Inhotim, considerado o maior museu a céu aberto do planeta, transformou o seu entorno, fazendo surgir um novo circuito turístico com pousadas, hotéis e restaurantes, atraindo somente no ano passado mais de 350 mil visitantes de mais de 20 países.
No mundo, o caso mais conhecido talvez seja o do Museu Guggenheim Bilbao, na Espanha. Inaugurado nos anos 1990, o museu transformou completamente a cidade, que antes era uma região industrial em declínio e hoje é um destino global de turismo voltado à cultura, arquitetura, gastronomia e inovação. O chamado Efeito Bilbao passou então a ser estudado como um case de como a cultura pode reposicionar economias.
Há inúmeros outros exemplos no Brasil e no mundo. O Espírito Santo tende agora a seguir esse rumo com o Cais das Artes, que finalmente decolou, representando também a importância da continuidade na gestão pública.
A obra foi concebida em 2007 pelo renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha e começou a sair do papel em 2010. Atravessou, portanto, as gestões de Paulo Hartung e Renato Casagrande, tendo sido interrompida durante alguns anos, recebendo críticas diversas. Mas felizmente foi entregue à população, simbolizando a importância da continuidade na gestão pública, viabilizando projetos que são de Estado, não de um governo.
A gestão do Cais das Artes foi estruturada sob um modelo de parceria, para garantir uma curadoria de alto nível e uma operação com eficiência de mercado, sem perder seu caráter público. O modelo de gestão será por meio de uma organização social, formato que permite maior agilidade na contratação de espetáculos internacionais e na manutenção técnica do complexo, o que seria impraticável num modelo convencional de administração direta.
Contar com um equipamento desse padrão representa um impulso para o desenvolvimento do Estado e também para a qualidade de vida da população. Num tempo marcado pela velocidade, superficialidade e fragmentação na circulação das informações, a atenção das pessoas virou um ativo escasso, sendo alvo de uma disputa intensa pelas redes sociais e pelas telas em geral.
Foco e concentração viraram artigo de luxo. A inteligência artificial amplia o acesso à informação e democratiza o conhecimento, mas também acelera a produção e o consumo de conteúdo, muitas vezes sem o devido filtro, sem contexto e reflexão.
Contudo, essa hiper oferta de informação não vem acompanhada da ampliação da nossa capacidade de compreensão. Pelo contrário, o que percebemos é uma crescente dispersão e dificuldade de concentração: especialistas têm alertado que o excesso de telas e o uso intenso de redes sociais estão diretamente associados ao aumento dos níveis de ansiedade, depressão, insônia e outros problemas de saúde mental.
É justamente nesse contexto que a cultura ganha um papel ainda mais relevante. Em um mundo acelerado, a arte nos convida a desacelerar. Em um ambiente superficial, ela nos conduz à reflexão e à profundidade. A arte exige tempo, contemplação, silêncio. Ela nos convida a pensar, a sentir, a refletir, num momento de reconexão com o que nos torna humanos.
Mais do que pura diversão, a arte é formação: ela forma repertório, senso crítico, sensibilidade. Funciona como base para a inovação, a criatividade e a construção de uma sociedade mais equilibrada e humana. Cidades com vida cultural intensa atraem mais talentos, retêm capital humano, estimulam a economia criativa e fortalecem a sua identidade. Empresas inovadoras buscam ambientes criativos. Pessoas qualificadas escolhem viver onde há qualidade de vida, e cultura é parte essencial disso.
O Espírito Santo, ao concluir o Cais das Artes, dá um passo importante nessa direção. Agora, o desafio é mantê-lo como um polo vivo e dinâmico, integrado à agenda cultural nacional e internacional, atraindo exposições, espetáculos e produções de alto nível, fortalecendo nossa conexão com o mundo e ampliando a qualidade de vida da população capixaba.