Quando alguém me diz que o Cais das Artes é apenas um grande caixote de concreto sem graça, paro para refletir sobre o quanto ainda nos falta observar e compreender a diversidade cultural expressa na arquitetura com a qual convivemos diariamente na cidade de Vitória. Não é à toa que a obra de Paulo Mendes da Rocha vem sendo, simultaneamente, criticada e elogiada por todos que a observam na paisagem da Baía de Vitória.
O mais importante, no entanto, não é rebater esse tipo de comentário, que muitas vezes surge carregado de uma violência simbólica própria da polarização entre o bem e o mal que marca o nosso tempo. As comparações entre investir em uma obra como o Cais das Artes e construir escolas também já chegaram aos meus ouvidos, como se essas dimensões fossem opostas e inconciliáveis.
Mas a pergunta que faço é: será que ainda não compreendemos que investir em educação é, necessariamente, investir em cultura? E, consequentemente, em arquitetura. Pessoas que vivem e experimentam arquiteturas de qualidade, que emolduram paisagens, qualificam o espaço urbano e ampliam as possibilidades de existência na cidade desenvolvem uma relação mais consciente com o mundo ao seu redor. A arquitetura, nesse sentido, não é apenas abrigo, mas instrumento de formação humana.
Ouso dizer que a ausência de transformação no olhar de quem vivencia espaços qualificados revela não uma falha da arquitetura, mas as profundas camadas sociais e culturais que moldam a nossa percepção. Pesquisadores como José Maria Montaner, Liziane Jorge e Steen Eiler Rasmussen já demonstraram, por meio de suas reflexões e investigações, que habitar espaços dignos, humanos e bem concebidos influencia diretamente a forma como percebemos a nós mesmos e o mundo.
No entanto, o moralismo superficial frequentemente se associa ao fantasma da corrupção pública para deslegitimar o papel da arquitetura como manifestação cultural. Nesse contexto, reduz-se a arquitetura a uma falsa dicotomia entre necessidade e expressão, como se fosse possível dissociar a formação cultural da construção material do espaço.
Achar uma obra bela ou feia é uma experiência subjetiva, e não é essa a questão central. O que importa é reconhecer que a arquitetura carrega propósito. Ela estrutura relações, cria permanências e produz significado. Mesmo quando questionada, a arquitetura continua sendo um agente ativo na construção da vida coletiva.
O Cais das Artes evidencia a capacidade de Paulo Mendes da Rocha de transformar estrutura em linguagem e território em experiência. Sua presença não é apenas formal, mas simbólica: é a afirmação de que a cidade é também um espaço de cultura, de encontro e de imaginação.
Ter o Cais das Artes finalmente concluído significa mais do que finalizar uma obra. Significa reafirmar o compromisso com uma cidade que reconhece o valor da cultura como parte essencial da vida pública.
Portanto, o poder de transformação está nas mãos daqueles que projetam o espaço, arquitetos e arquitetas que, ao assumirem a responsabilidade de sua prática, podem contribuir para construir não apenas edifícios, mas novas possibilidades de existência coletiva.
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