O arquiteto Paulo Mendes da Rocha não gostava de condomínios fechados. Um de seus argumentos era especialmente poético: o de que lugares privativos privam as pessoas de muita coisa, como por exemplo que um estudante de medicina possa se apaixonar por uma bailarina.
O Cais das Artes, último espaço projetado por ele antes de morrer, em 2021, aos 92 anos, é o avesso dessa impossibilidade.
Dois blocos suspensos e um grande vão livre, que preservam a vista para a Baía de Vitória e o Convento da Penha, são um convite aos encontros, não só de um futuro médico com uma moça que dança, mas também entre o concreto e o afeto, a memória e o futuro, as janelas e o mar.
Sei que ainda tem gente que duvida da beleza e da grandeza do local, da poesia do seu cinza em absoluto diálogo com o entorno. Sei que ironizam o quadrado da forma, o cimento do material, a cor que falta. Sei que questionam a força de tê-lo na nossa cidade e no nosso tempo.
Eu vejo de outro modo. Compartilho do orgulho de testemunhar uma obra de Paulo Mendes da Rocha ser erguida na cidade natal dele, cinco anos depois de sua morte, a despeito dos muitos desafios do caminho.
Faço coro aos admiradores desse capixaba ilustre, respeitado não apenas como arquiteto, mas também como um pensador do espaço público em conversa generosa com o outro.
Me alegro com o humanismo que move a concepção do edifício e sua primeira ocupação, uns dias atrás e daqui pra frente, gradualmente.
Como um poema concreto, ou um poema de concreto, o Cais das Artes com seus vãos e volumes nos lembra de perseguir o equilíbrio entre resistência e leveza.
Demorou, é verdade. Mas desconfio que, do lado de lá, o neto de Serafim Derenzi esteja alegre e satisfeito, fumando seu cigarrinho, repetindo que a cidade é feita mais do comportamento dos homens do que das construções, reafirmando que a arquitetura ampara a imprevisibilidade da vida.