A confirmação da instalação da montadora chinesa GWM – Great Wall Motors no Espírito Santo, na semana passada, é uma excelente notícia que inaugura um novo capítulo na indústria do Espírito Santo. Além dos efeitos imediatos e dos números impressionantes – 10 mil empregos, 200 mil veículos anuais, investimentos totais de R$ 10 bi no país –, a iniciativa reposiciona o Estado como um novo polo automotivo, com potencial de alterar profundamente o perfil produtivo da economia capixaba.
A presença no Estado de um polo automotivo desse porte tende a atrair novos fornecedores de tecnologia e serviços, estimulando a formação de um cluster industrial com alto impacto multiplicador em setores como metalurgia, eletrônica, plásticos de engenharia, tecnologia da informação e serviços especializados.
O Espírito Santo já conta com um investimento importante no setor, que é a unidade da Marcopolo em São Mateus, atuando há 10 anos aqui. Ela tem cerca de 2 mil empregados e opera com média de fabricação de até 20 veículos por dia. O setor agora dá um salto.
Essa lógica de cluster industrial e de encadeamentos produtivos é exatamente o que o economista Paulo Gala, professor da FGV de São Paulo há mais de 20 anos, identifica como característica de atividades com complexidade produtiva elevada. O que significa isso? Elas são capazes de gerar não apenas volumes maiores de produção, mas também resultados mais sofisticados em termos de valor agregado, inovação e conhecimento acumulado.
O economista sustenta em seus estudos que a riqueza de uma economia está diretamente relacionada à sofisticação dos produtos que ela é capaz de produzir e exportar, não simplesmente pelo volume, mas pela densidade de conhecimento incorporada aos bens.
A produção automobilística é um exemplo clássico dessa categoria: a fabricação de um veículo exige habilidades em disciplinas como eletrônica, química avançada, engenharia mecânica e integração de sistemas complexos, que poucas economias conseguem dominar de forma autônoma. Esse “conhecimento coletivo” é um ativo que se espalha por toda a cadeia produtiva, elevando a produtividade e as capacidades tecnológicas do território onde está inserida, no caso, o Espírito Santo.
Há tempos se debate a necessidade de diversificação da economia capixaba, ainda muito dependente de commodities como minério, aço, celulose e petróleo e gás. Historicamente, a economia do Estado foi baseada no café, depois vieram os grandes projetos industriais dos anos 60 e 70, depois o petróleo e o gás e o fortalecimento de setores como metalmecânica, rochas, móveis, têxtil, entre outros.
No ano passado, a indústria capixaba cresceu 11,6%, como mostram dados do IBGE e da Findes, mas essa alta foi puxada pela indústria extrativa, que cresceu 18,3%, notadamente pelo petróleo – uma produção que pode ser alterada a qualquer momento por uma mudança de rota da Petrobras. A indústria de transformação, que realmente é relevante por promover o desenvolvimento tecnológico e a inovação, encolheu 0,8%. Por tudo isso, a diversificação é tão importante: é um processo que já estava em andamento e ganha agora novo impulso com a GWM.
O que ocorre com o modelo das commodities? Essas atividades dependem de preços internacionais e oferecem margens menores. Já a indústria automobilística tende a proporcionar salários mais altos, empregos mais qualificados e elos produtivos robustos, que é justamente o que o Espírito Santo precisa, para agregar valor à economia local.
A chegada da GWM representa de fato uma grande mudança no perfil econômico regional, ajudando a reduzir a dependência tradicional de setores menos complexos, avançando na construção de um arranjo industrial sofisticado, inovador e exportador.
A fábrica será implantada no Parque Industrial de Aracruz, integrada à infraestrutura logística do ParkLog ES e do Porto de Imetame, o que é estratégico para a competitividade da operação, permitindo a exportação de veículos e a importação eficiente de componentes. Isso teria contribuído fortemente para a escolha do Espírito Santo.
Já abordamos neste espaço a importância do ParkLog ES, que é um capítulo à parte: um grande complexo logístico-industrial, abrangendo 10 municípios na região de Aracruz e Linhares, integrando portos, rodovias e ferrovias, com mais de R$ 12,3 bilhões em investimentos públicos e privados, que visa tornar a região um hub de classe mundial até 2035.
Todos esses investimentos terão impacto altamente positivo na economia do Estado nos próximos anos. O Espírito Santo mais uma vez serve de referência para o país, com ambiente institucional favorável aos negócios e diálogo e parceria entre setor público e privado. Que o país possa seguir os nossos passos!
Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.
