Uma oportunidade pode ser um trem que não volta mais à estação. E o governo estadual embarcou nele há três anos, mas adotou a estratégia do sigilo para negociar com a GWM (Great Wall Motors) a instalação de sua planta industrial no Espírito Santo, com capacidade de produção de 200 mil veículos por ano e geração de 10 mil empregos.
Foi em 2023, quando a montadora chinesa passou a importar carros pelos portos capixabas, que o interesse em trazer a fábrica para o Espírito Santo começou. A GWM já planejava construir uma nova instalação no Brasil, e as autoridades estaduais iniciaram as reuniões e visitas para convencer os executivos chineses de que o Espírito Santo seria a melhor opção. O Paraná foi o estado com o qual a disputa foi mais acirrada.
Para expor as viabilidades capixabas para receber um empreendimento de tal tamanho, o governo do Estado, por meio da Nova-ES, agência voltada à atração de investimentos, reuniu informações sobre áreas disponíveis, benefícios, infraestrutura (gás, água, energia e logística) e mão de obra. Um verdadeiro cartão de visitas com as potencialidades locais, tudo bem organizado para dar certo.
Com o anúncio da instalação em Aracruz, ficou evidente que os investimentos logísticos na região foram um diferencial competitivo. O Espírito Santo venceu porque se preparou para vencer. O município de Aracruz, com o complexo portuário que vai ancorar o parque logístico integrado à primeira Zona de Processamento e Exportação (ZPE) privada do Brasil, se tornou ponta de lança com muita estratégia.
E, como foi reforçado por um executivo da montadora no Brasil à coluna de Abdo Filho, a estabilidade institucional também encheu os olhos dos chineses. O que, mais uma vez, mostra ter sido a vitória de uma construção de longo prazo, em um estado que se destaca nos últimos 20 anos pelo equilíbrio fiscal e pela perenidade das ações governamentais. O sucesso não veio por acaso.
A chegada da GWM é um evento relevante para a economia capixaba também por ser um investimento que vai atrair mais investimentos, sobretudo na formação de uma cadeia de fornecedores locais. A nova planta industrial já enche os olhos da ArcelorMittal Tubarão, que prepara um aporte bilionário na construção de um Laminador de Tiras a Frio e de um galvanizador, e pode no futuro se tornar fornecedora do aço. Competitiva certamente a siderúrgica será.
O horizonte é de otimismo, porque o que o Espírito Santo precisa é diversificar a sua indústria. Será a segunda montadora por aqui, além da Marcopolo, em São Mateus. O caso da GWM mostra que a discrição pode ser mais eficiente para se chegar a um bom resultado, principalmente quando há boas propostas a serem feitas. Basta lembrar a briga entre o Espírito Santo e a Bahia pela fábrica da Ford (que abandonou o Brasil em 2021) na década de 1990. Muito barulho por nada. Desta vez, venceu o silêncio estratégico.
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