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Léo de Castro

O último ato de Lula: abrir mão da disputa

Se o presidente Lula abrir o caminho para uma nova perspectiva para o país, a eleição de 2026 pode representar essa oportunidade de mudança

Publicado em 26 de Abril de 2026 às 03:30

Públicado em 

26 abr 2026 às 03:30
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro

O Brasil se aproxima de mais uma eleição presidencial em um momento decisivo. O país tem enormes potenciais a serem explorados na economia global, na logística e na transição energética, para ficar somente em dois exemplos, mas está preso há anos em uma polarização estéril, que em nada contribui para o nosso desenvolvimento. 


Diante do impasse atual e de tanto tempo já perdido, seria o caso de o presidente Lula ser instado a uma reflexão necessária: não é a hora de encerrar a sua carreira política?


Lula, que sempre diz amar tanto o Brasil, e de fato ama, em nome desse amor, poderia deixar de disputar novamente a presidência da república, abrindo caminhos para novas lideranças políticas, inclusive no seu próprio campo, contribuindo para oxigenar o ambiente político e possibilitar um debate efetivo de ideias e projetos para o futuro do país. Esse debate hoje não existe. 

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No momento, não temos um planejamento para os próximos 10 ou 20 anos, ninguém sabe ao certo o que pensam hoje os principais candidatos sobre questões básicas como equilíbrio fiscal, ampliação de investimentos e redução do Custo Brasil. Onde queremos estar no futuro, nos próximos 10 anos? Não temos a resposta.


O PT governou o Brasil por mais tempo do que qualquer outra força política nos últimos 40 anos. Já são três mandatos de Lula e mais dois que ele conseguiu para a sua candidata Dilma – que acabou afastada num processo de impeachment no segundo mandato e não recuperou mais relevância eleitoral. 


Lula completará 81 anos em outubro próximo e seu nome está na cédula eleitoral desde 1989, quando o voto ainda era no papel. Mesmo os mais devotos haveriam que concordar que ele deu a sua contribuição. Seria importante abrir caminho para novas lideranças. Nos EUA, o ex-presidente Joe Biden desistiu de disputar a reeleição em favor de sua vice, Kamala Harris, em julho de 2024, quando tinha exatamente 81 anos.


Nesses últimos 40 anos o Brasil patinou na economia, crescendo em média pouco mais de 2% ao ano. Perdemos espaço para outros emergentes. Tomando como referência o crescimento do PIB em Paridade de Poder de Compra (PPC), métrica que ajusta as diferenças no custo de vida e poder aquisitivo entre os países, o Brasil registrou um crescimento acumulado de 167%, perdendo relevância global. 


Nesse mesmo período, a China cresceu aproximadamente 2.933%, saltando de uma economia menor que a brasileira em 1985 para a 2ª maior potência global nominal e 1ª em PPC. A Índia teve uma expansão de cerca de 1.000%, consolidando-se recentemente como a 4ª maior economia do mundo e superando o Brasil de forma definitiva a partir de 2013. Há inúmeros exemplos para ilustrar a nossa estagnação.


Em Brasília, nos meios políticos e empresariais, circula a expressão Bobacoca - Bolso, Barriga, Coração e Cabeça, indicando a sequência da motivação do voto, nessa ordem, o que significaria dizer que, por último, as pessoas votam com a cabeça. O bolso sempre fala muito alto, mas quem sabe não é hora de repensar essa sequência.

Temos no momento grandes oportunidades no cenário global, notadamente na transição energética. É um de nossos maiores ativos: enquanto boa parte do mundo ainda depende de fontes fósseis, o Brasil já possui uma matriz majoritariamente renovável. Isso abre espaço para produção de hidrogênio verde, expansão de biocombustíveis e atração de indústrias que buscam reduzir emissões.


No campo da infraestrutura e de concessões, temos outras oportunidades. O país tem uma carteira robusta de projetos em portos, rodovias, ferrovias e energia. Com isso, podemos atrair investimento internacional e reduzir gargalos históricos de produtividade. Mas boa parte desses projetos permanece em fase de estruturação, dependente de licenciamento, de decisões judiciais e ajustes regulatórios – o próprio governo esbarra no chamado Custo Brasil.


Qualquer empreendimento, público ou privado, sofre com esse custo. Por que não nos mobilizamos então para combatê-lo devidamente? Bobacoca? Não estaríamos usando bem a cabeça na tomada de decisões? Temos abordado essas questões ao longo dos anos neste espaço e podemos constatar que não temos uma agenda de desenvolvimento de longo prazo para atacar essas questões. 


Sabemos que precisamos fortemente de um ajuste fiscal, para reduzir os juros e facilitar investimentos públicos e privados, mas sabemos também que essa agenda está fora do debate atual, ficando talvez para 2027, quando a conta chegar.


Se o presidente Lula abrir o caminho para uma nova perspectiva para o país, a eleição de 2026 pode representar essa oportunidade de mudança. Será um momento de amadurecimento, de reposicionamento e de construção de um país mais moderno, mais competitivo e mais alinhado com as transformações globais. O Brasil, mais do que escolher o próximo presidente, precisa escolher um caminho.

Léo de Castro

Empresario, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaco, aborda economia, inovacao, infraestrutura e ambiente de negocios.

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