Todavia, tais características ficam ainda mais acentuadas num momento crítico como este, que exigiria da liderança máxima do país uma postura institucional oposta: de clareza, coerência e preocupação em sempre transmitir informações e exemplos adequados à população.
Nestes últimos quinze dias, o presidente tem manifestado uma forte tendência à ambiguidade, que beira um comportamento bipolar. Num dia diz algo relacionado à pandemia, só para se desdizer na entrevista do dia seguinte e, na mesma coletiva de imprensa, voltar a indicar o sinal contrário. Tamanha oscilação só aprofunda as incertezas e a sensação de insegurança entre o povo brasileiro, o qual, em momento tão delicado, espera e merece de seu líder mensagens e sinais claros. Mas, ao contrário, o vaivém é tão intenso que nos leva até a nos perguntarmos: afinal, em qual Jair Bolsonaro devemos acreditar?
Devemos acreditar naquele que, na quarta-feira, declarou (enfim!) que a “qüestão é muito grave” ou no que, na mesma entrevista, voltou a afirmar que a mídia está criando em torno dessa pandemia uma comoção exagerada, maior que a que foi dada a crises piores no passado?
Devemos crer no Bolsonaro que afirma que “o foco é a saúde da família brasileira” ou no que, dois dias antes, criticara a “histeria” e o “alarmismo” acerca da situação? No presidente que, na coletiva de quarta-feira, apareceu diante do mundo usando uma máscara cirúrgica – miseravelmente manuseada por ele –,
como já fizera em sua live do dia 12, ou no que, entre essas duas datas, no domingo passado (15), literalmente se atirou nos braços do povo,
contrariando as orientações da OMS, da área técnica do seu próprio governo e, finalmente, dele mesmo?
Devemos nos fiar no Bolsonaro que afirma, correta e institucionalmente, que as pessoas devem seguir as recomendações do Ministério da Saúde (incluindo evitar aglomerações), ou no que critica a suspensão de torneios de futebol? No Bolsonaro que escala o seu ministro da Defesa para afirmar, ao lado dele, que o enfrentamento da pandemia “é uma guerra”, ou no que na véspera dissera, com toda a naturalidade,
que faria uma festinha de aniversário neste fim de semana?
Realmente, está mais difícil a cada dia surpreender-se com declarações contraditórias e atitudes incoerentes protagonizadas pelo nosso presidente. Ou pelos nossos presidentes: no plural.