Paradoxos, contradições e incoerências diárias têm marcado a postura com a qual o presidente Jair Bolsonaro encara a pior crise sanitária atravessada pelo Brasil e pelo mundo inteiro neste século. A atitude, em si, não chega a ser uma novidade. A bem da verdade, são traços do perfil do nosso presidente da República, revelados em vários episódios anteriores a este; traços que têm ditado seu comportamento desde que chegou ao Palácio do Planalto.
Todavia, tais características ficam ainda mais acentuadas num momento crítico como este, que exigiria da liderança máxima do país uma postura institucional oposta: de clareza, coerência e preocupação em sempre transmitir informações e exemplos adequados à população.
Nestes últimos quinze dias, o presidente tem manifestado uma forte tendência à ambiguidade, que beira um comportamento bipolar. Num dia diz algo relacionado à pandemia, só para se desdizer na entrevista do dia seguinte e, na mesma coletiva de imprensa, voltar a indicar o sinal contrário. Tamanha oscilação só aprofunda as incertezas e a sensação de insegurança entre o povo brasileiro, o qual, em momento tão delicado, espera e merece de seu líder mensagens e sinais claros. Mas, ao contrário, o vaivém é tão intenso que nos leva até a nos perguntarmos: afinal, em qual Jair Bolsonaro devemos acreditar?
Naquele que, na coletiva de imprensa de quarta-feira (18), defendeu “a união dos Poderes” para a superação da crise ou no que, poucos dias antes, convocou e participou pessoalmente de manifestação de rua com pauta declaradamente antidemocrática e inconstitucional, pelo fechamento do Congresso e do STF?
Naquele que, também na coletiva de quarta, conclamou todas as autoridades à união de esforços ou no que, dois dias antes, criticou governadores em função de medidas corretamente adotadas por eles em seus Estados enquanto ele próprio parecia mais preocupado com protestos de rua totalmente fora de contexto?
Devemos acreditar naquele que, na quarta-feira, declarou (enfim!) que a “qüestão é muito grave” ou no que, na mesma entrevista, voltou a afirmar que a mídia está criando em torno dessa pandemia uma comoção exagerada, maior que a que foi dada a crises piores no passado?
Devemos crer no Bolsonaro que afirma que “o foco é a saúde da família brasileira” ou no que, dois dias antes, criticara a “histeria” e o “alarmismo” acerca da situação? No presidente que, na coletiva de quarta-feira, apareceu diante do mundo usando uma máscara cirúrgica – miseravelmente manuseada por ele –, como já fizera em sua live do dia 12, ou no que, entre essas duas datas, no domingo passado (15), literalmente se atirou nos braços do povo, contrariando as orientações da OMS, da área técnica do seu próprio governo e, finalmente, dele mesmo?
Devemos nos fiar no Bolsonaro que afirma, correta e institucionalmente, que as pessoas devem seguir as recomendações do Ministério da Saúde (incluindo evitar aglomerações), ou no que critica a suspensão de torneios de futebol? No Bolsonaro que escala o seu ministro da Defesa para afirmar, ao lado dele, que o enfrentamento da pandemia “é uma guerra”, ou no que na véspera dissera, com toda a naturalidade, que faria uma festinha de aniversário neste fim de semana?
Devemos levar em conta o chefe de um governo cujos ministros da Saúde e da Justiça baixam portaria autorizando a prisão de potenciais infectados que descumpram a exigência de quarentena, ou no que, dois dias antes, deu ao povo o exemplo contrário, fugindo ele próprio do recolhimento a que deveria se obrigar?
Devemos seguir à risca o mandatário que diz só ter levado “a verdade” e “a tranquilidade” para a população, ou aquele outro que, em rompante demagógico na mesma entrevista, avisa que ninguém deve surpreender-se se ele aparecer em um metrô lotado em São Paulo, ou na barca entre o Rio e Niterói?
Realmente, está mais difícil a cada dia surpreender-se com declarações contraditórias e atitudes incoerentes protagonizadas pelo nosso presidente. Ou pelos nossos presidentes: no plural.