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Ligação de Flávio Bolsonaro e Vorcaro abre crise na campanha bolsonarista: 'Balde de água fria'

Revelação de que o senador conversou com o banqueiro em 2025 e pediu dinheiro para financiar filme sobre o pai pode mudar os rumos da disputa presidencial de outubro, avaliam analistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil

Publicado em 13 de Maio de 2026 às 22:34

BBC News Brasil

Publicado em 

13 mai 2026 às 22:34
Imagem BBC Brasil
Crédito: REUTERS/Adriano Machado
A revelação da relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pode embaralhar a disputa presidencial de outubro, avaliam analistas políticos.
Nesta quarta-feira (13/5), o senador admitiu ter pedido a Vorcaro dinheiro para custear as gravações de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Segundo reportagem do portal The Intercept Brasil, o valor negociado teria chegado a US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época.
Desse total, R$ 61 milhões teriam sido liberados entre fevereiro e maio de 2025.
Diante dos atrasos para os pagamentos restantes, Flávio teria enviado mensagens a Vorcaro cobrando a liberação dos recursos.
Vorcaro está preso sob acusação de comandar fraudes bilionárias no Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro. Ele negocia um acordo de delação premiada.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Flávio admitiu a conversa com Vorcaro, mas afirmou que apenas buscava investidores privados para financiar um filme sobre o pai.
"Toda essa história que está sendo veiculada agora nada mais é do que um filho procurando investidores privados para fazer um filme privado sobre a história do seu próprio pai. Zero de dinheiro público, zero de Lei Rouanet", disse.
Ele também afirmou que conheceu Vorcaro apenas após o governo Bolsonaro, em dezembro de 2024, e que procurou outros investidores para concluir o projeto diante de atrasos nos pagamentos.

Crise pressiona pré-candidatura de Flávio

Mais cedo na segunda-feira, a pesquisa Genial/Quaest mostrou melhora na aprovação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que passou de 43% para 46%.
O levantamento, feito antes das revelações do Intercept, apontou empate técnico entre Lula e Flávio em um eventual segundo turno, mas com vantagem numérica para o petista: 42% a 41%.
Para Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), até agora Flávio Bolsonaro "jogava parado" na pré-campanha, apostando na transferência de votos do pai.
"A incógnita era se essa transferência de votos se manteria ao longo da campanha, quando ele deixasse de ser apenas o herdeiro dos votos de Jair Bolsonaro e passasse a ser uma pessoa com suas próprias idiossincrasias", afirma.
"Esses elementos podem conturbar aquilo que parecia ser o caminho que as coisas seguiriam."
O cientista político Claudio Couto, da Fundação Getulio Vargas, também aposta que o episódio do pedido de dinheiro a Vorcaro tem potencial de interromper o crescimento de Flávio nas pesquisas, mas pondera que ainda é cedo para medir a dimensão do desgaste.
"Isso tende a produzir um certo estancamento na subida que ele vinha apresentando", afirma. Segundo ele, o senador pode sofrer alguma queda nas próximas pesquisas, ainda que a polarização limite perdas mais profundas no curto prazo.
Couto avalia que a gravidade do caso pode aumentar caso novas revelações sejam divulgadas nos próximos dias. "Se isso acontecer de novo, como ocorreu na Vaza Jato, pode ser que hoje tenha aparecido isso e amanhã apareça outra coisa. Aí o comprometimento é muito maior."
Para Yuri Sanches, diretor de risco político da Atlas/Intel, o principal desafio de Flávio era ampliar sua imagem para além do núcleo bolsonarista mais fiel.
"Flávio precisa desconstruir a rejeição dele atrelada ao sobrenome e aos casos de corrupção. Ao mesmo tempo, ele tenta construir uma imagem de gestor diferente do pai, de um Bolsonaro moderado, que tomou vacina e alguém experiente, ainda que não tenha experiência de gestão", afirma.
Segundo ele, as revelações sobre a relação com Vorcaro atingem diretamente essa estratégia de reposicionamento. "Esse caso vem como um balde de água fria nesse processo de desconstrução que estava sendo feito."

Caso Master deve pautar eleições

Sanches também avalia que a divulgação das mensagens de Flávio a Vorcaro pode dar contornos mais concretos a um escândalo que ainda parecia difuso para parte do eleitorado.
"O caso Master, diferente de outros casos de corrupção, estava um pouco difuso sobre quem ele implicava. Se o Supremo Tribunal Federal, o Congresso inteiro, mais recentemente o Ciro Nogueira", afirma. "Agora, com esse vínculo direto com o Flávio Bolsonaro, isso traz um elemento muito concreto para a opinião pública se pautar."
Ele pondera que a eleição tende a continuar polarizada, mas o eleitor decisivo costuma reagir fortemente a crises de imagem e corrupção.
"Temos dois blocos bastante sólidos no país, em termos de preferência ideológica e política", afirma o analista.
"Isso faz com que o eleitorado-chave que vai entregar a vitória a algum candidato seja bastante reduzido. Foi assim em 2022. Por isso que o Lula venceu por 1,8% de vantagem de diferença. Esse eleitorado é muito sensível à crise de imagem e corrupção."
Já o cientista político Hilton Fernandes, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), pode reduzir a capacidade do bolsonarismo de explorar denúncias de corrupção contra o PT.
"Isso irá diminuir o poder de associar casos de corrupção ao PT e pode afetar o engajamento de militantes. O caso do banco Master é muito grave e ainda deve atingir outros políticos, candidatos ou não, causando prejuízos nas campanhas eleitorais, em especial pelo afastamento de apoiadores que não querem ser vinculados ao escândalo", avalia.
"Como a rejeição dele e de Lula são altas, um desgaste deste tipo pode inviabilizar a vitória nas urnas, ainda que o candidato mantenha uma base fiel."

Disputa interna na direita se intensifica

Mayra Goulart argumenta, no entanto, que a principal consequência das revelações tende a ser o aprofundamento das disputas internas na direita. O episódio ocorre em meio a uma sequência de conflitos dentro do campo bolsonarista.
Nesta semana, o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP) e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) trocaram críticas públicas após a definição da chapa do PL ao Senado deixar Salles fora da disputa.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) também protagonizou atritos recentes com integrantes da família Bolsonaro.
No final de abril, Nikolas acusou "aliados de longa data" de promover perseguição a quem não divulga a candidatura de Flávio. Pouco depois, chamou Jair Renan Bolsonaro de "toupeira cega".
A fala foi interpretada como resposta indireta ao vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), que havia anunciado um "levantamento" de integrantes do PL que não promovem a candidatura do irmão.
Para Goulart, o episódio desta quarta pode reduzir a competitividade de Flávio e aumentar a fragmentação da direita. "Se essa candidatura chegar sem tração no segundo turno, existe uma possibilidade maior da vitória do candidato no campo progressista", diz.
Por outro lado, uma troca de candidato neste momento é arriscada para o PL, aposta Hilton Fernandes.
"O novo nome precisaria ser ungido pelo clã de forma coesa, o que também é difícil. Se surgirem novas denúncias que compliquem de vez a candidatura de Flávio, o PL pode ter que abrir mão de uma indicação na cabeça de chapa em troca da manutenção de seu poder nas casas legislativas", afirma.
"Neste cenário, é importante observar os próximos passos de Ronaldo Caiado e seu partido, o PSD."
Também pré-candidato à Presidência, Caiado adotou uma postura cautelosa. Em um vídeo publicado no X, o ex-governador de Goiás afirmou que Flávio Bolsonaro deveria se explicar, mas que ele não era um "homem oportunista" e que era importante trabalhar para que a "centro-direita brasileira não se divida, não rompa essa unidade para que possamos, aí sim, derrotar o PT e o Lula nas urnas".
Já o ex-governador Romeu Zema (Novo-MG), que vinha sendo cotado para ser candidato a vice em uma chapa com Flávio, criticou o aliado. Em um vídeo publicado nas redes sociais, ele disse que o áudio divulgado pelo Intercept é um "tapa na cara dos brasileiros de bem".
"Flavio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil", declarou.
Claudio Couto avalia que o episódio dificulta uma eventual substituição de Flávio Bolsonaro dentro do próprio grupo político. "Agora os ataques podem começar com tudo, porque você tem um telhado de vidro", afirma.
Segundo ele, uma troca de candidatura neste momento seria politicamente delicada para o PL. A alternativa mais óbvia seria Michelle Bolsonaro, mas o cientista político avalia que o episódio também atinge diretamente a imagem da família Bolsonaro como um todo.
"Como ele mesmo disse, é o filho querendo financiar um filme sobre o pai. Como é que fica a esposa nisso? Não me parece que a situação seja muito confortável."

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