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Bolsonaro: a falta que faz um líder de verdade para o país

Como oficial do Exército, um “capitão” é aquele que comanda, que sabe liderar uma tropa, sobretudo em uma situação de guerra. É uma “liderança natural”. Ou, ao menos, deveria ser...

Públicado em 

25 mar 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro Crédito: Amarildo
A professora Elda Bussinguer, em artigo publicado no dia 23 no site de A Gazeta, argumenta que o presidente Jair Bolsonaro não se mostra um verdadeiro estadista e que o país se ressente da ausência de um homem público com espírito de liderança na posição de presidente da República – mais ainda neste grave momento de enfrentamento à pandemia do coronavírus, como ficou demonstrado novamente na noite desta terça-feira (24), em seu pronunciamento à nação.
Em diálogo com a articulista, manifesto a minha concordância: Bolsonaro não é um verdadeiro líder, daqueles talhados e vocacinados para exercitar a liderança em qualquer espaço. Nunca o foi antes de chegar à Presidência. Não preocupou-se em se tornar um, uma vez lá.
Apenas acrescentaria o seguinte: ninguém deveria surpreender-se com a falta de liderança manifestada pelo presidente na condução desta crise do Covid-19. Tome-se o seu currículo e a sua biografia. Nosso atual presidente passou parte da vida no seio das Forças Armadas e metade dela no Congresso Nacional. Jamais foi líder destacado do que quer que seja em nenhuma das duas instituições. Pelo contrário.
Na Câmara Federal, foram quase 30 anos (sete mandatos ao todo, emendados, com três filhos na política e muitos parentes espalhados pelos gabinetes da família). Quase três décadas de baixíssima produção parlamentar e inexpressividade política orgulhosamente assumida. Nunca presidiu uma comissão importante. Nunca relatou um projeto da maior relevância para o país.
Em plena campanha presidencial em 2018, na sua entrevista ao Jornal Nacional, a primeira coisa que ele disse, sem o menor traço de rubor, foi que, como deputado federal, pertencia ao “baixo clero”. A expressão é sinônimo de “parlamentar desimportante”. Um termo pejorativo, assumido por ele próprio, sem pejo, ao apresentar as suas credenciais políticas para ser guindado à Presidência.
No Exército, embora a patente o acompanhe para o resto da vida, a verdade é que a carreira do capitão foi muito curta. Sua passagem pela ativa foi marcada pelo trato hostil dispensado aos subalternos e pela insubordinação reservada aos superiores. 
Acabou abreviada após atos de indisciplina que traduzem muito pouco apreço pelos valores mais caros ao Exército, aqueles mesmos que hoje ele tanto diz defender: a ordem, a disciplina, o respeito à hierarquia. Na ativa, o capitão não personificou tais virtudes.
Então, é difícil imaginar como alguém que em seus mais de 60 anos de vida jamais manifestara espírito de liderança poderia de repente receber esse espírito logo na Presidência da República.

VERDADE OU MITO?

Creio ser particularmente oportuno verificar a discrepância entre a mitologida erigida por simpatizantes em torno de Jair Bolsonaro, desde que era pré-candidato à Presidência, e o personagem real – o indivíduo tal qual se apresenta. Essa mitologia se condensa nos dois epítetos com que apoiadores em geral se referem ao presidente: ele é o “Mito” e é o “Capitão”.
O primeiro termo contém, em si mesmo, o distanciamento da realidade: por definição, um “mito” não existe na dimensão real; faz parte do universo da fábula, da fantasia, da idealização. Já a segunda forma de tratamento remete à sua patente militar (esta, sim, real), que por sua vez remonta não só a sua (breve) trajetória no Exército como a todo o conjunto de ideias e imagens ligadas ao universo das Forças Armadas.
A primeira delas é justamente a ideia de liderança. Como oficial do Exército, um “capitão” é aquele que comanda, que sabe liderar uma tropa, sobretudo em uma situação de guerra. É uma “liderança natural”. Ou ao menos deveria ser. Não obstante, como se constata na prática, tal característica não está presente em Bolsonaro como presidente, assim como não esteve presente nem em sua carreira parlamentar nem em sua carreira militar. O que temos é um vácuo de liderança. 
Além disso, há outras virtudes que povoam o imaginário social referente às Forças Armadas, qualidades que todos nós associamos à carreira militar, mas que tampouco se podem notar no perfil do presidente: lacunas em um exame vocacional e de personalidade. Individualmente, Bolsonaro não apresenta características indissociáveis da instituição militar, como a busca pela excelência técnica, o pensamento metódico e racional.
De um militar se espera objetividade, clareza, firmeza em suas ordens e posicionamentos. Mas o processo de tomada de decisões de Bolsonaro é um ir e vir permanente. De um bom soldado se espera o cumprimento irrestrito do seu dever para com o Estado, a salvo de quaisquer paixões político-ideológicas. Mas o governo do capitão da reserva foi contaminado por ideologia. Uma ideologia que invadiu os critérios para a tomada de decisões de Estado – por exemplo, nas relações exteriores.
Finalmente, de qualquer militar – independentemente da patente, porém mais ainda de oficiais –, espera-se seriedade e comportamento austero. É o que todos nós imaginamos quando pensamos em um coronel, um major ou um capitão, não é?
Mas não é o que temos visto no comportamento do presidente – muito pouco “presidencial”, como diriam os norte-americanos.
Ao fim e ao cabo, a persona se aproxima mais de um personagem saído das tiras do Recruta Zero. E que traz, a tiracolo, o 01, o 02 e o 03.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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