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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Com ataques covardes, Bolsonaro legitima agressões a mulheres e minorias

Incivilidade e vulgaridade do presidente "autorizam" a violência contra a imprensa e contra grupos sociais (sobretudo, mulheres). Suas palavras estimulam comportamentos sociais marcados por desrespeito e preconceito

Publicado em 20/02/2020 às 05h02
Atualizado em 20/02/2020 às 11h46
Bolsonaro e a língua afiada. Crédito: Amarildo
Bolsonaro e a língua afiada. Crédito: Amarildo

Já ficou muito para trás, lá no início do governo, a esperança de que, uma vez na Presidência, Bolsonaro poderia ser virtuosamente contagiado pelo decoro inerente ao cargo, isto é, pela dignidade, honradez e respeito exigidos do representante máximo do governo e do Estado brasileiro. Morreu nos primeiros meses de governo a ilusão de que, uma vez com a faixa presidencial, Bolsonaro pudesse se despir, de uma vez por todas, daquele personagem caricato que encarnou durante toda a carreira como deputado federal – 28 anos de medíocre atuação parlamentar, improdutivos para a sociedade brasileira e marcados por um conjunto de declarações preconceituosas, desrespeitosas e ofensivas a adversários políticos, a minorias identitárias e a vítimas da repressão e da tortura (tão celebrada por ele) durante a ditadura militar.

Não, o Bolsonaro que subiu a rampa do Planalto em 1º de janeiro de 2019 foi o mesmo deputado brigão, grosseirão, vulgar, incivilizado, especializado em estimular a violência, o preconceito e o desrespeito. É aquele mesmo homem sem modos, nem noções básicas de boas maneiras que você exigiria do seu filho no trato com as pessoas (homens e mulheres), que dirá de um presidente da República.

Ao subir a rampa do Planalto, Bolsonaro levou com ele a mesma incivilidade, a mesma vulgaridade e a mesma ignorância, na dupla acepção do termo, de que por vezes parece se orgulhar, quando por exemplo difama uma profissional de imprensa sem mais nem menos, entre risadas inexplicáveis (só compartilhadas pelos bajuladores de plantão), como se a grave ofensa não passasse de uma piadinha entre amigos, da seção “tiozão do pavê”. Foi assim no mais recente de inumeráveis episódios em que o presidente faltou com o decoro e o respeito a uma pessoa, premissas básicas esperadas de um estadista que ele não é: o ataque gratuito e difamatório à jornalista Patrícia Campos Mello, da “Folha de S. Paulo”.

Ninguém está rindo com ele. Ninguém além dos apoiadores cegos e dos que acham, como ele, que é normal fazer comentários infames, debochados, de conotação sexual, envolvendo uma profissional e cidadã brasileira. A reação seguinte de Bolsonaro – perplexo e sentindo-se afrontado pela reação da mídia a suas palavras – revela outra coisa: em Bolsonaro, a grosseria está tão entranhada que às vezes ele diz a grosseria sem compreender que o que disse é intolerável. Ofende a honra de alguém sem se dar conta da gravidade de suas palavras, sem ter a noção básica de que está ferindo a dignidade humana de outro(s) indivíduo(s). Ou, simplesmente, sem dar a mínima para isso. 

Na exaustiva tarefa de relativizar e minimizar a perversidade de certas declarações do presidente, torcedores recorrem aos argumentos de sempre: “falou no calor do momento”, “fala tirada de contexto”, “só figura de linguagem” etc. Há, porém, uma outra desculpa mais elaborada para o indesculpável: seria só diversionismo, uma estratégia consciente de Bolsonaro, para distrair intencionalmente a atenção da mídia e das massas para questões menores enquanto sua caravana passa e ele coloca em prática os projetos que realmente importam ao país. Por essa ótica, as declarações ofensivas de Bolsonaro seriam, na verdade, “inofensivas”, questões menores sem nenhuma relevância. Só uma “distração”.

Esse raciocínio é duplamente equivocado. Primeiro, porque não se trata “apenas” de palavras ao vento, desconectadas da realidade e de medidas concretas. As falas de Bolsonaro refletem um pensamento ideológico que tem sido acompanhado por ações – muitas delas, felizmente, barradas pelo Congresso, pela Justiça e por pressão da opinião pública. Por exemplo, Bolsonaro não apenas diz, como bravata, que “o meio ambiente só importa a veganos”; medidas provisórias e projetos enviados por ele ao Congresso e a política do ministro Ricardo Salles são, cristalinamente, de desmonte da legislação ambiental.

Bolsonaro não apenas “censura” na fala, no campo retórico, filmes com temáticas LGBT; editais para financiamento de filmes com essa abordagem foram suspensos pelo governo, e a tesoura da censura tem agido cada vez mais desembaraçadamente, com base em critérios de fundo religioso e moralista incabíveis em um Estado democrático e laico como este país ainda é. Bolsonaro não só condena a “ideologia de gênero”, a “doutrinação ideológica” e a “erotização precoce nas escolas”; a tragicômica campanha do ministério de Damares para combater a gravidez na adolescência, tão eficaz quanto dizer “não use drogas”, tem um cunho moralista e doutrinário e troca educação sexual nas escolas por… abstinência. Boa sorte com isso!

Ainda mais grave é o segundo erro de quem prefere crer na irrelevância das palavras do presidente.

O "RISCO BOLSONARO" PARA A ECONOMIA E PARA CIDADÃOS

Quando transferimos essa “língua sem filtro” para outras questões, Bolsonaro – por suas crenças, mas sobretudo por sua incontrolável verve – se estabelece a cada dia como um risco maior para o Brasil, para a tão almejada estabilidade político-institucional do país, para nossas relações exteriores com parceiros comerciais e, consequentemente, para o nosso crescimento econômico. A cada palavra sua mal pensada e mal colocada (e são muitas), o nosso próprio presidente afugenta potenciais investidores. E o “risco Bolsonaro” não é só para a economia.

Cada vez que ofende uma minoria, ou o(a) representante de uma minoria, Bolsonaro representa um risco – aliás, potencializa o risco já existente na sociedade brasileira – de agressões de todo tipo contra segmentos que já sofrem no dia a dia com a discriminação e a violência em várias dimensões (física, inclusive), em um país historicamente violento.

Mais até que as ações, as palavras de um presidente contêm uma responsabilidade de que Bolsonaro não parece desconfiar. Como presidente, o que ele pensa e diz serve de referência para o povo governado, balizando comportamentos. Em outras palavras, uma palavra do presidente tem o poder tanto de refrear como de estimular comportamentos sociais. Nesse aspecto, Bolsonaro é um desastre, não só porque se recusa a censurar (quando deveria por força fazê-lo) atitudes terríveis, mas também porque dá declarações que estimulam e legitimam tais atitudes.

Por exemplo, o presidente da República diz com todas as letras que não vai demarcar nenhuma terra indígena, que é preciso legalizar o garimpo em reservas indígenas, que o meio ambiente atrapalha o desenvolvimento do país e, literalmente, que, para proteger a natureza, devemos defecar a cada dois dias. Quando dá declarações como essas, qual é o recado que transmite ao garimpeiro, ao grileiro, ao madeireiro, ao latifundiário? “O meio ambiente não importa! Danem-se os índios, danem-se as reservas! Vamos queimar e tomar tudo, pois o presidente não vê problema algum!”

Da mesma forma, quando o presidente afirma que turistas gays no Brasil não são bem-vindos e que "leis existem para proteger maiorias", entre outros tantos disparates homofóbicos, ele está dizendo para o cidadão: “Ei, está tudo bem você xingar, bater e até matar gays por serem gays. Homofobia não é crime. O crime é ser homossexual”.

Na mesma toada, quando Bolsonaro faz insinuações sexuais irreproduzíveis contra uma jornalista pelo simples fato de ela ter publicado reportagem que ele preferia engavetada, só reforça comportamentos machistas, tão presentes na sociedade e no mercado de trabalho, de quem vê a mulher como um ser inferior que, se tem sucesso na carreira, só pode ser porque valeu-se de artifícios além da própria competência profissional.

É óbvio que isso reforça problemas crônicos da sociedade brasileira que deveriam ser combatidos, não estimulados, como a desigualdade de tratamento e de pagamento entre homens e mulheres no mercado de trabalho (outro ponto que, para o nosso presidente, “tá ok”), assédio sexual, violência doméstica e, no limite, feminicídios (que só crescem no país).

No caso do ataque a Patrícia Campos Mello, manifesta-se, por tabela, a legitimação de outro discurso que é uma obsessão do presidente: os constantes ataques à imprensa, esta instituição basilar da nossa democracia, e, por extensão, a todos os pilares do nosso Estado democrático de Direito e de nosso sistema de freios e contrapesos que claramente incomodam Bolsonaro.

O presidente não só não consegue conviver com as instituições democráticas como parece sentir-se asfixiado por elas. Certamente preferiria não ter que lidar com Justiça, Congresso, imprensa, nada disso, mas ser o chefe de um regime autocrático no qual o presidente pudesse governar acima das leis e dos demais Poderes, sem responder a ninguém. Numa palavra, uma ditadura. Aliás, se Bolsonaro não conseguiu, até agora, ir além em seus arroubos e dar concretude a suas bravatas autoritárias, agradeça-se a essas mesmas instituições que (por isso mesmo) tanto o incomodam.

Mas é pior: os ataques de Bolsonaro não são “apenas” contra os veículos de comunicação, as pessoas jurídicas que compõem a “grande mídia”. Covardemente, o presidente consolidou o perverso hábito de dirigir ataques pessoais a jornalistas, indivíduos no pleno cumprimento do seu dever e no exercício de uma profissão que presta um serviço à sociedade: o de informar o público (inclusive sobre aquilo que o governo não deseja que seja informado).

A covardia é maior ainda pelo cenário em que tais ataques têm sido praticados: um palco que ele pode controlar, na segurança do Palácio da Alvorada, com os repórteres mantidos a distância e cercado por um cordão de apoiadores, em geral barulhentos, que o aplaudem até se ele disser que a Terra é plana.

Ninguém se admire se ele em breve disser isso.

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