“O presidente da República não está liderando o país. Mais uma vez ele está liderando os seus seguidores, em vez de liderar o país.” Assim o governador Renato Casagrande (PSB) resume a sua opinião sobre o comportamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em meio à pior crise de saúde pública vivida pelo Brasil e pelo mundo inteiro neste milênio, com consequências também dramáticas para a economia: a pandemia do coronavírus.
Para Casagrande, em vez de se portar como o estadista que a ocasião exige, o presidente insiste em se colocar como “um líder de facção política”. Segundo ele, a avaliação é compartilhada pelos demais governadores de norte a sul do país:
"Nós perdemos a esperança no presidente. Nele, sim. […] Perdemos totalmente a expectativa e a esperança de ter um presidente que pudesse ser um estadista. O presidente Bolsonaro está se colocando em todos os episódios, mas neste episódio em especial, como um líder de uma facção política, apesar de exercer uma função pública que o deveria colocar na posição de um estadista."
De acordo com Casagrande, a incessante busca pelo confronto não é nenhuma novidade, e sim o comportamento manifestado por Bolsonaro em todas as questões de governo. Porém, agora, as consequências dessas postura para o Brasil são bem mais graves.
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“O presidente Bolsonaro tem adotado uma postura que é a postura que ele adota em todos os outros assuntos importantes do Brasil: a disputa, o enfrentamento, o discurso feito só para sua base. […] Em todos os episódios anteriores do seu governo, foi isso. Mas, nesse episódio em especial, esse comportamento dele, que é o mesmo, é muito, mas muito mais grave. Com esse episódio não tem comparação, porque nós estamos tratando agora de vidas”, sublinha o governador.
"Agora ele não está falando sobre preço de combustível. Está tratando de vidas. Então ele querer jogar no colo dos governadores... para quê? Por que não estamos trabalhando juntos para defender mais vidas?"
Para Casagrande, em opinião que ele também diz compartilhada por outros governadores, o presidente está fazendo o oposto do que deveria neste momento. “É uma frustração com a atuação do presidente. É um trabalho que temos que fazer, dia a dia, para que possamos responder à militância virtual dele, aos verdadeiros e aos robôs. […] O presidente da República está atrapalhando o nosso trabalho. Literalmente, atrapalhando ao invés de ajudar.”
Diante dessa constatação, o governador do Espírito Santo afirma que ele e os demais chefes do Executivo nos Estados cansaram-se de esperar por uma coordenação de esforços que deveria partir do Planalto, mas que o presidente claramente se recusa a assumir nesta crise.
Unidos aos presidentes da Câmara e do Senado Federal, eles estão se organizando por conta própria em um “movimento” para buscar envolver não Bolsonaro, mas o governo federal (a despeito do seu chefe), a fim de "compensar um pouco a ausência do presidente" e de unificar o trabalho de enfrentamento às crises sanitária e econômica que atingem a todos indistintamente.
"Se tivéssemos um presidente que coordenasse isso, seria muito bom para o país. Como o presidente não coordena, nós, governadores, estamos na linha de frente, juntamente com os presidentes da Câmara e do Senado. Estamos fazendo um movimento para que haja uma coordenação nacional que enfrente situações de gravidade como esta."
Essa “organização paralela”, no entanto, à revelia do chefe da República, não representa um desrespeito à autoridade e à legitimidade do presidente para conduzir esse processo? Casagrande responde de bate-pronto:
"Ele não quer fazer isso. Ele não quer participar. Então, ele não querendo participar dessa coordenação, nós queremos que o governo dele participe. Se ele não quer liderar pessoalmente esse esforço, nós queremos que o governo dele participe."
Para Casagrande, ao insistentemente minimizar os impactos do coronavírus, Bolsonaro “está pagando para ver”. Os governadores preferem não fazer o mesmo.
E no horizonte mais sombrio? Será que o governador do Espírito Santo enxerga a possibilidade de um golpe de Estado por parte de um presidente que, segundo sua visão, só faz se isolar politicamente?
“Não posso nem imaginar isso”, responde Casagrande. “Um golpe de Estado também exige apoio popular. Portanto não posso crer que seja esse o seu objetivo. Se for, ele pode estar indo por um caminho errado. É lógico que é inaceitável. E nós não aceitaremos golpe.”
Leia, abaixo, a entrevista completa de Renato Casagrande para a coluna:
O senhor pensa que o presidente Bolsonaro tem se mostrado um governante à altura do momento, verdadeiro líder na condução dessa crise?
O presidente Bolsonaro tem adotado uma postura que é a postura que ele adota em todos os outros assuntos importantes do Brasil, que é a disputa, o confronto, o enfrentamento, o discurso feito só para sua base. Ele não tem sido um presidente que consegue estabelecer uma mediação e liderar o país numa hora como essa, convivendo com pessoas que pensam diferente dele. Em todos os episódios anteriores do seu governo, foi isso. Mas, nesse episódio em especial, esse comportamento dele, que é o mesmo, é muito, mas muito mais grave. Com esse episódio não tem comparação porque nós estamos tratando agora de vidas. Estamos tratando agora de pessoas que podem perder a vida e de pessoas que podem ter uma necessidade de internação. Nós estamos agora tratando de vidas humanas, tá certo? Então, nesse episódio, ele tinha que liderar o Brasil, para que o Brasil pudesse ter uma posição única, e não incentivar a disputa e o enfrentamento.
E ele não está fazendo isso? Não está liderando de verdade?
Não está liderando. O presidente da República não está liderando o país. Mais uma vez ele está liderando os seus seguidores em vez de liderar o país. É só você verificar o pronunciamento que ele fez na última terça-feira (24), que mostrou claramente a decisão dele de fazer um discurso para a sua base. Para a sua base eleitoral, para a sua base de seguidores, para quem pensa como ele. Antes mesmo desse pronunciamento, o presidente já tinha se comportado assim. E o pronunciamento dele, inclusive, foi contra aquilo que o Ministério da Saúde está orientando, que a Organização Mundial da Saúde orienta. É um comportamento que não lidera.
É, entre aspas, “incorrigível”? O senhor e os outros governadores já perderam a esperança de que ele possa mudar?
Já. Já perdemos. Já perdemos. Nele, sim.
Vocês perderam a esperança no presidente Bolsonaro?
Para ele ser líder do país e trabalhar numa ação conjunta para diminuir os efeitos de uma crise como a dessa pandemia e de outras que poderão vir, nós perdemos totalmente a expectativa e a esperança de ter um presidente que pudesse ser um estadista. O presidente Bolsonaro está se colocando em todos os episódios, mas neste episódio em especial, como um líder de uma facção política, apesar de exercer uma função pública que o deveria colocar na posição de um estadista.
Nos bastidores ali das reuniões e ligações entre os governadores, qual é a percepção predominante? O que é que vocês, governadores, comentam entre si nos últimos dias?
O comentário é de falta de coordenação nacional, de que a gente não tem nenhuma chance de ter uma coordenação que nos oriente e nos congregue. É uma frustração com a atuação do presidente. É um trabalho que temos que fazer, dia a dia, para que possamos responder à militância virtual dele, aos verdadeiros e aos robôs.
E isso atrapalha a concentração de esforços no que deveria ser prioritário?
Atrapalha muito, muito, muito mesmo, porque atrapalha o nosso trabalho... Você vê que, do pronunciamento dele para cá, nós tivemos mais pessoas nas ruas, nós estamos vendo uma movimentação para abrir comércios, sem nenhum protocolo. Algumas pessoas querem abrir o comércio por abrir. É lógico que está todo mundo desesperado porque está com o comércio fechado, mas nós estamos trabalhando dentro de um planejamento. Há 15 ou 16 dias atrás, nós decretamos situação de emergência na saúde pública. De lá para cá, foram diversas medidas para orientar e esclarecer as pessoas sobre o que deve ser feito. E estamos conseguindo resultados. As pessoas estão colaborando. Está todo mundo colaborando.
Então, no seu entendimento, o presidente da República está atrapalhando, em vez de ajudar?
O presidente da República está atrapalhando. Literalmente, atrapalhando ao invés de ajudar. Parece que ele coloca um confronto entre quem está preocupado com a economia e quem está preocupado com a vida das pessoas e com a saúde. Não tem confronto nisso: em primeiro lugar é a saúde, é a vida das pessoas. E junto com isso você pode discutir efetivamente as posições com relação aos estímulos à economia, às medidas que podem ser tomadas em conjunto. Então se tivéssemos um presidente que coordenasse isso, seria muito bom para o país. Como o presidente não coordena, nós, governadores, estamos na linha de frente, juntamente com os presidentes da Câmara e do Senado. Estamos fazendo um movimento para que haja uma coordenação nacional que enfrente situações de gravidade como esta.
Comenta-se que, cansados de esperar por essa coordenação que não vem por parte da Presidência, os governadores decidiram se organizar num fórum paralelo, interestadual, com a participação do presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, para adotar as providências que precisam mesmo ser tomadas, desconsiderando as opiniões que partem diretamente do presidente Bolsonaro. O senhor crê que o caminho é mesmo esse?
Não é “desconsiderando”. Nós estamos pedindo ao Davi Alcolumbre e ao Rodrigo Maia que nos ajudem a envolver o governo federal. Nós não temos a expectativa do envolvimento do presidente da República. Mas queremos envolver os ministros do governo federal, porque numa crise como esta, que tem efeitos sobre a saúde, sobre a economia, sobre o cidadão mais pobre, é preciso que o governo federal esteja envolvido. Não é “desconsiderar”. É um movimento que a gente faz, governadores e Congresso Nacional, para que a gente possa ter algum nível de governança no Brasil.
O Poder Judiciário está nisso também?
O Judiciário também. Menos contato com o Judiciário, mas o Congresso tem contato com o Judiciário, para que a gente consiga compensar um pouco a ausência do presidente Bolsonaro.
Isso não é desrespeitar a figura e a autoridade do presidente da República?
Ele não quer fazer isso. Ele não quer participar. Então, ele não querendo participar dessa coordenação, nós queremos que o governo dele participe. Se ele não quer liderar pessoalmente esse esforço, nós queremos que o governo dele participe. Então, pela frustração que a gente tem pelo comportamento dele como presidente, o nosso trabalho é para que consigamos envolver o governo dele, o que o Congresso Nacional pode e deve fazer.
O senhor acredita que, mantendo essa postura irredutível, Bolsonaro tende a ficar politicamente isolado ou pode até crescer politicamente com isso?
Eu não acredito que medidas isoladas e comportamento de enfrentamento em todos os assuntos levem um chefe de Poder Executivo a se fortalecer. Não acredito. A tendência é ele se fragilizar, é ele se enfraquecer, porque a cada dia ele consegue surpreender negativamente mais pessoas. E isso leva ao isolamento político. Um chefe de Poder Executivo não pode ficar isolado politicamente, porque ele ele precisa de apoio no Congresso Nacional e precisa de apoio na sociedade. E a minha impressão é que ele, com essas posições de liderar apenas a sua facção política, ele vai se cristalizando na sua facção política, que não é a maioria da sociedade brasileira. Então ele é forte entre os seguidores incondicionais dele, mas ele começa a perder aquelas pessoas no centro que acreditavam que ele pudesse fazer a retomada do crescimento do nosso país.
Na sua avaliação, o presidente está tentando jogar no colo dos governadores a culpa por uma crise econômica que ele sabe que é inevitável?
Ele pode estar tentando isso. Só que a aposta dele neste caso é muito irresponsável, porque eu repito: ele não está tratando de preço de combustível. Está tratando de vidas. Se estivesse tratando se o preço da gasolina vai custar R$ 4,00 ou R$ 5,00, é inaceitável, mas é luta política. Agora, neste caso, ele está tratando de vidas. Então ele querer jogar no colo dos governadores... para quê? Por que não estamos trabalhando juntos para defender mais vidas? Se trabalharmos juntos, podemos diminuir o impacto do coronavírus no Brasil inteiro. E, se não tiver impacto, ótimo. Eu falei com ele naquele reunião virtual que tivemos [na quarta-feira (25), entre o presidente e os governadores do Sudeste]: “Presidente, eu nunca desejei tanto que suas palavras estivessem corretas e que isso de fato não passe de uma 'gripezinha'. Mas eu não posso pagar para ver”.
O senhor acha que ele está pagando para ver?
Sim, ele está literalmente pagando para ver.
No limite, o senhor crê que possamos caminhar para um golpe de Estado?
Não posso nem imaginar isso. Um golpe de Estado também exige apoio popular. Ninguém dá golpe de Estado sem apoio popular. Portanto não creio, não posso crer, que seja esse o objetivo. Se for o objetivo, ele pode estar indo por um caminho errado, na visão dele e na avaliação dele. É lógico que é inaceitável. E nós não aceitaremos golpe.
Por fim, na juventude, o senhor jogou futebol, como zagueiro, em times amadores como o Comercial de Castelo. Por seu histórico de “atleta amador”, por assim dizer, o senhor sente-se mais protegido em relação à Covid-19? Pensa que, se contrair o vírus, estará livre de complicações?
A Covid-19 tem o seguinte comportamento no mundo: as primeiras 100 mil pessoas foram contaminadas ao longo de 45 dias. As 100 mil seguintes, para chegar a 200 mil, levaram 13 dias. As outras 100 mil, para chegar a 300 mil, cinco dias; para chegar a 400 mil, foram três dias; para atingir 500 mil, foram dois dias; para alcançar 600 mil, um dia e meio. Isso no mundo. Ou seja: os primeiros 100 mil casos no mundo foram notificados em 45 dias. Já os últimos 100 mil casos foram notificados em 1,5 dia. A velocidade de transmissão desse vírus é impressionante! E, mesmo que a pessoa seja saudável, ou aparentemente saudável, todos os cuidados precisam ser tomados. Todos os cuidados. É lógico que as pessoas que têm fragilidades, doenças crônicas, e as pessoas que têm mais idade precisam ter mais cuidado ainda para que não se contagiem pelo vírus. Mas todas as pessoas, independentemente da sua idade, precisam ter muito cuidado, porque estamos vendo pessoas novas perdendo a vida mundo afora porque achavam que não sofreriam nenhuma consequência se contaminadas pelo vírus.