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Pronunciamento revela um presidente desastrado e um país sem direção

A necessária proteção à economia durante a pandemia  não descarta a adoção de medidas duras de isolamento social, que têm se mostrado as mais eficientes ao redor do mundo

Publicado em 26/03/2020 às 06h00
Atualizado em 26/03/2020 às 06h00
Bolsonaro contraria o próprio Ministério Saúde e pede fim do
Bolsonaro em pronunciamento no qual pediu fim do "confinamento em massa". Crédito: Reprodução da TV

pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro foi desastroso e irresponsável em tantos níveis que chega a ser penoso elencá-los, mas ficou especialmente patente a incapacidade de alinhar duas frentes de combate que, neste momento, são reconhecidamente vitais para qualquer autoridade política sensata deste país.

A necessária proteção à economia durante a pandemia do novo coronavírus não descarta a adoção de medidas duras de isolamento social, que têm se mostrado as mais eficientes ao redor do mundo. As convicções de Bolsonaro sobre a Covid-19 beiram a infantilidade, ignorando protocolos internacionais baseados em dados científicos e médicos. 

Brasil, no contexto da pandemia que já matou mais de 20 mil pessoas no planeta, está em uma posição que poderia ser considerada até privilegiada: por ter começado a registrar casos tardiamente, o governo federal tem à sua disposição a experiência de outras nações e as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). A sabedoria é olhar para esses países que já atravessam a crise desde janeiro e fevereiro e, baseado no que tem dado resultado, adotar as mesmas medidas.

O "isolamento vertical", defendido por Bolsonaro, é um exemplo do que não funcionou no Reino Unido e na Holanda. Com a escalada dos casos e a ameaça de colapso do sistema de saúde, os governos desses países acabaram recuando da decisão de isolar apenas idosos e pessoas com doenças prévias e adotando as medidas mais drásticas que foram mais eficientes em países como a China e a Coreia do Sul. A insistência do presidente em amenizar o quadro nacional, inclusive com a volta às aulas nesta fase em que não se atingiu o pico de infectados, não é só contraproducente, mas perigosa.

O momento é de ações simultâneas e integradas. Enquanto o Ministério da Saúde age no foco da pandemia, organizando o setor com o estabelecimento de prioridades que garantam a segurança epidemiológica, a equipe econômica também deve estar na linha de frente para articular pacotes de ajuda aos trabalhadores e de estímulo à economia, principalmente para a população e setores mais vulneráveis com as restrições impostas pelo isolamento domiciliar. Donald Trump, alvo da admiração de Bolsonaro, acabou de lançar um plano de estímulos econômicos de 2 trilhões de dólares.

É evidente que a paralisação das atividades tem impacto na vida em sociedade, com prejuízos que vão do abastecimento à logística, inclusive para o transporte de insumos hospitalares, como frisou o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, ao se posicionar sobre a fala do presidente na tarde desta quarta-feira (25). Mas é justamente para isso que Bolsonaro foi eleito: para que em tempos de crise como a atual, por mais inédita que seja, consiga gerenciar os reveses. 

Bolsonaro ainda não se comporta como um presidente, continua o mesmo bufão de sempre. O tom personalista do seu pronunciamento, recheado de alfinetadas e ironias, deu a sensação de que a maior preocupação do presidente é expor suas supostas virtudes, cada vez mais questionáveis. Nesta quarta-feira, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que Bolsonaro não soube se expressar. Em cadeia aberta de rádio e TV, um presidente, diante de uma crise sem precedentes nesta era hiperconectada, não pode falhar dessa maneira. 

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