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Antônio Carlos de Medeiros

De volta ao pessimismo da razão e ao otimismo da vontade

É possível viver e conviver em lugares de construção de bem-estar. Com uma longa construção de sociedade. São muitos ainda os exemplos de países onde se vive bem

Publicado em 02 de Maio de 2026 às 04:00

Públicado em 

02 mai 2026 às 04:00
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros

Peço paciência ao leitor. Uma reflexão coloquial. Uma espécie de miscelânea intelectual e factual. Pensando com meus botões.


Foi Gramsci quem cunhou a célebre frase que virou aforismo: pessimismo da razão e otimismo da vontade. Fazia parte do diálogo dele com os anarquistas italianos na década de 1920 na Itália.


A frase virou sábia reflexão factual e intelectual. A vida como ela é, é sempre uma dialética entre a razão e o otimismo. Às vezes entorna o caldo e vira guerra. Às vezes gera consenso para avançar em busca de um país melhor e uma sociedade em ritmo de bem-estar.


Hoje no contexto da preferência pelo capitalismo ocidental democrático e liberal, agora meio iliberal mesmo nos Estados Unidos. Ou pelo capitalismo político de estilo chinês, de perfil autoritário.           

Foto de Antonio Gramsci por volta dos 30 anos, nos anos 1920.
Foto de Antonio Gramsci por volta dos 30 anos Wikimedia Commons com uso de IA

A vida é um pêndulo. A política também. Praticamos política em nosso dia a dia sem achar que é política. Quente e frio. Embrulha e desembrulha. Para a esquerda ou para a direita. Ou para centro. O pêndulo. Bem-estar e mal-estar. Raiva e ódio. Esperança e desesperança. A vida como ela é.


Pois é. Outro dia um velho amigo dos pampas gaúchos me enviou uma exclamação depois de ler alguns textos recentes meus: “Seu pessimismo me surpreende”. Conversamos.


Não se pode ignorar e contornar os fatos. Os fatos, por aqui pelo nosso país, resultam em ondas de regressão societal e individual. Às vezes andamos de lado. Às vezes andamos para trás. Mas tem hora que acaba vencendo o otimismo da vontade.


Quem dera nós brasileiros pudéssemos ser levados por ventos do otimismo da vontade agora em 2026 na hora do voto em outubro. Comparecer para votar e votar bem para melhorar o Brasil.


Em 2014, o então pré-candidato a presidente da República Eduardo Campos (PSB-PE) conclamava: “Não vamos desistir do Brasil”. Infelizmente, foi vítima de um desastre aéreo.


Abril é mês de arianos e taurinos. Outro dia foi meu aniversário. Ariano. Fiquei sabendo que vem aí Maria Eleonora. Agora serão seis netos. Três netas e três netos. Me levam a continuar olhando para a frente. O futuro. Otimismo da vontade ou pessimismo da razão?

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No final das contas, quase sempre é uma resultante da dialética vontade & razão. Por exemplo, tenho um velho amigo de “apenas” 64 anos de amizade que interage comigo o pessimismo da razão (ele) com o otimismo da vontade (eu).


O meu amigo dos pampas gaúchos acha que virei casaca para o time do pessimismo da razão.


Não é bem assim.


Andei relendo as premissas do chamado Consenso de Washington. Que conduziu os rumos do capitalismo e gerou o chamado neoliberalismo. Ênfase excessiva na primazia da dimensão econômica. Nem tudo é economia.


Ando agora lendo e estudando o chamado Consenso de Londres. O de Washington é dogmático e unilateral: foco apenas na economia. O de Londres não é dogmático e mostra que o capitalismo tem cada vez mais uma dimensão política e institucional.


A economia anda cada vez mais sob a bússola da política. Inverter essa lógica é mirar em regressão. É obvio. O império dos dogmas é regressivo.


O meu momento de pessimismo vem de uma leitura factual da nossa realidade brasileira. 


Vem sobretudo da simples (mas grave) constatação de que nós estamos sendo conduzidos por dois conjuntos de lideranças (Lula/lulismo & Jair Bolsonaro/bolsonarismo) que não apresentam mais projeto de futuro. Fadiga de material e cansaço.


Mas o meu otimismo vem de outro fato simples: uma outra opção está a caminho. Será? Cresce a cosmovisão liberal social. Espirito do tempo em mutação. Vai ser agora em 2026? Talvez.


Acredito em processo societal. A dialética da vida em sociedade.


Andei pelo mundo. Me afastei um pouco das minhas origens capixabas. Voltei às raízes.


A visão da Pasárgada de Manuel Bandeira (“vou me embora para pasárgada”) ficou mais longe do horizonte. No mundo dos impérios e das guerras.


Mesmo assim, é possível viver e conviver em lugares de construção de bem-estar. Com uma longa construção de sociedade. São muitos ainda os exemplos de países onde se vive bem.


São muitos também os exemplos territoriais de cidades ou estados onde se constrói vida melhor e bem-estar. O Espírito Santo é um estado que está dando certo. Uma virada que durou pelo menos 24 anos. Vitória também é uma cidade que está dando certo – um longo caminho de mais de 30 anos.


A dialética da vida em sociedade.


O Brasil também pode dar certo. Depende de nós. Olhar para o futuro.


Com a dialética do pessimismo da razão e do otimismo da vontade.

Antônio Carlos de Medeiros

E pos-doutor em Ciencia Politica pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaco, aos sabados, traz reflexoes sobre a politica e a economia e aponta os possiveis caminhos para avancos possiveis nessas areas

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