Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Eugênio Ricas

O preço (e o risco) de ceder ao crime

Não cabe às empresas substituir o Estado. Mas é recomendável, sim, recusar a normalização da coerção como pedágio inevitável para produzir, vender, transportar ou prestar serviços

Publicado em 02 de Maio de 2026 às 04:30

Públicado em 

02 mai 2026 às 04:30
Eugênio Ricas

Colunista

Eugênio Ricas

Notícias recorrentes sobre ataques a provedores de internet em diferentes estados brasileiros, somadas à atuação de milícias que exploram serviços, impõem taxas e pressionam a atividade econômica, não deveriam ser lidas apenas como desafios da segurança pública. 


Tudo isso também diz respeito ao ambiente de negócios: revela o avanço do crime organizado sobre mercados formais, a imposição de custos ilegais às empresas e a ocupação criminosa de espaços que deveriam ser regidos pela livre concorrência e pela lei.


Por muito tempo, esse tipo de problema foi tratado pelas empresas como um tema externo, restrito à esfera policial. Esse entendimento, no entanto, já se mostrou equivocado. 


Quando uma empresa altera rotas por medo, tolera pagamentos informais para continuar operando, aceita fornecedores “impostos” pelo crime ou deixa de investigar quem está por trás de determinados prestadores de serviço, ela já não está apenas adaptando seu modo de operar. Está, ainda que sem admitir, cedendo autonomia, fragilizando controles e abrindo espaço para a corrosão gradual de sua governança.

.

No Espírito Santo, essa reflexão também é relevante. O estado reúne comércio, serviços, logística, transporte e um sistema portuário decisivo para sua economia. Portos como Vitória, Vila Velha, Tubarão, Praia Mole e Portocel, além dos projetos de expansão portuária, compõem uma engrenagem estratégica para a circulação de mercadorias, a atração de investimentos e a competitividade capixaba. 


Em ambientes assim, o crime organizado não precisa aparecer apenas na manchete mais dramática para já representar uma ameaça. Ele pode se aproximar por meio dos mais inusitados caminhos e processos: na pressão sobre rotas e acessos, na infiltração em serviços terceirizados, na intimidação de equipes, na opacidade de empresas de fachada ou na imposição silenciosa de custos ilegais à atividade regular.


Sob uma perspectiva de gestão de riscos, importa compreender que empresas e Estados com forte vocação logística e empresarial podem estar mais suscetíveis à atuação e à infiltração do crime organizado. 


Está cada vez mais evidente que a exploração de cadeias logísticas por criminosos tem sido uma constante e, portanto, deve representar um risco potencial devidamente mapeado pelas empresas.


Isso exige mais do que vigilância. Exige conhecer melhor quem são os parceiros de negócio (due diligence), mapear riscos territoriais, reforçar critérios de contratação, integrar áreas como segurança, jurídica, auditoria e operação, reforçar canais de denúncias e estabelecer protocolos claros para situações de coação, extorsão e interrupção forçada de atividades. 

Veja Também 

Imagem de destaque

Integridade empresarial não é custo, é estratégia

Imagem de destaque

O risco de relativizar o estupro de crianças

Imagem de destaque

2025 confirmou que a segurança pública no Brasil segue marcada por contrastes

Sobretudo, exige que o tema chegue à alta administração e seja tratado como questão de governança e continuidade do negócio, e não apenas como contratempo local ou atribuição exclusiva dos órgãos de segurança pública.


Não cabe às empresas substituir o Estado. Mas é recomendável, sim, recusar a normalização da coerção como pedágio inevitável para produzir, vender, transportar ou prestar serviços. Pagar para operar ou fechar os olhos à infiltração silenciosa do crime organizado em negócios legítimos não pode ser visto como alternativa aceitável. É o começo da perda de governança. 


E, quando isso acontece, o prejuízo deixa de ser apenas financeiro: atinge a reputação, compromete a liberdade de empreender e enfraquece o ambiente econômico que sustenta o desenvolvimento. 


Nossa Constituição estabelece que a segurança pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos e, nesse contexto, um ambiente corporativo íntegro e conhecedor dos riscos a que está exposto tem muito a contribuir para uma realidade de mais segurança (e, obviamente, para seu próprio crescimento sustentável).

Eugênio Ricas

É superintendente regional da Polícia Federal no Espírito Santo, ex-secretário da Justiça e ex-secretário de Controle e Transparência do Espírito Santo, mestre em Gestão Pública pela Ufes

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Foto de Antonio Gramsci por volta dos 30 anos, nos anos 1920.
De volta ao pessimismo da razão e ao otimismo da vontade
Mitra (cobertura da cabeça), produzida pela Cordis, que o novo arcebispo de Aparecida vai usar em sua posse
O talento (visível) capixaba na posse do novo arcebispo de Aparecida
Imagem de destaque
"O ES é fundamental no reposicionamento da Vale", afirma presidente da companhia

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados