Ganhar dinheiro rápido em momentos de necessidade é o que motiva 39% dos brasileiros que fazem apostas on-line. Essa e outras motivações contribuem para que uma em cada cinco pessoas acredite que apostas esportivas em bets sejam um tipo de investimento.
Enquanto a média geral de gastos dos apostadores é de R$ 195,15 por mês, esse valor sobe para R$ 284,81 entre aqueles que veem a prática como investimento. Os dados fazem parte da 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (Anbima) com o Datafolha.
O especialista em finanças Lélio Monteiro explica que essa confusão pode ocorrer devido à semelhança básica entre um investimento e uma aposta: em ambas as situações, a pessoa arrisca um determinado valor com chances de receber lucro ou prejuízo.
Porém, as diferenças falam mais alto. As apostas esportivas são consideradas apenas jogos de azar voltadas para recreação, sem garantias ou proteções legais. Diferentemente dos investimentos, que são regulados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Segundo o assessor de investimentos e educador financeiro Érico Colodetti, os riscos também não são os mesmos. “Os riscos de um investimento são causados pela volatilidade, que é a oscilação dos preços no mercado de ações. Esse risco é impactado por muitos fatores, como a economia e a política. No caso do jogo, essa volatilidade é muito grande porque ela depende da sorte, fazendo com que os riscos também sejam maiores”, afirma.
Monteiro reforça que as apostas não seguem a lógica econômica dos investimentos.
O problema é que o jogo é imprevisível, ele não obedece a uma razão. E as bancas [bets] ganham uma taxa em cima de cada aposta. Então, para ter lucro, é preciso vencer a banca e vencer o valor das taxas. As chances, que poderiam ser iguais pela imprevisibilidade, são diminuídas pela taxa da banca. Assim, a chance de perder é muito maior do que a de ganhar.
Lélio Monteiro Especialista em finanças
Dinheiro de lazer ainda é um gasto
O levantamento da Anbima também mostra uma outra parcela dos apostadores: os 32% que justificam as apostas apenas como um divertimento. E isso também acende um alerta para os brasileiros que gostam do jogo de azar, mas buscam economizar.
A recomendação dos assessores entrevistados é não entrar nas apostas, nem como forma de recreação.
E para quem já está endividado, o ideal, segundo eles, é reconhecer que a aposta não deixa de ser um gasto. Para poupar esse dinheiro, é preciso se organizar, destinar os valores para quitar dívidas e criar uma reserva de emergência.
Os especialistas orientam: no cálculo de gastos mensais, a bet deve ser classificada necessariamente como um custo (um dinheiro que saiu). Qualquer ganho deve ser visto como uma exceção.
A lacuna na educação financeira
O apelo de ganhos rápidos dos jogos esbarra em uma profunda desigualdade do país: a maior parte da população não tem acesso a uma base educacional sobre o assunto. Apenas 21% dos entrevistados afirmaram já ter participado de algum treinamento ou palestra sobre educação financeira.
“Isso acontece de forma muito sutil: a pessoa tira o dinheiro que usaria para pagar as contas da casa ou para o lazer e coloca em algo que vai ser perdido. Ela abre mão de uma parte do orçamento na tentativa de melhorar seu padrão de vida, mas acaba piorando. Mesmo que a sorte ajude em algum momento, a matemática do jogo garante a perda no longo prazo”, diz o assessor de investimentos Daniel Carraretto.
Para os especialistas entrevistados, o investimento na educação é a melhor saída para que o brasileiro comece a mudar os hábitos e a se conscientizar.
“Com a educação financeira, é possível desmistificar a ideia de um ‘retorno rápido’ e trazer a verdadeira realidade de que os investimentos também retornam, e de forma muito mais segura, a longo prazo. Dessa forma, nós vamos ter menos pessoas se endividando, menos pessoas gastando o seu dinheiro com apostas e com outros jogos e mais pessoas com o dinheiro rendendo”, complementa Carraretto.
Como o cérebro reage ao jogo
A discussão vai além do financeiro e coloca em pauta os reflexos psicológicos. O principal cuidado, ao se envolver com jogos e apostas esportivas, é o autocontrole. E a educação financeira pode agir como uma ferramenta de prevenção da saúde. Isso porque as estratégias de marketing e a emoção de “quase ganhar” podem viciar o cérebro.
Segundo Érico Colodetti, a rapidez é um dos principais fatores que levam ao vício em apostas. “A bet mexe com uma parte do nosso cérebro, que a neurociência explica como circuito de recompensa ou sistema dopaminérgico. Diferentemente de uma loteria, que não te dá nada na hora, nos jogos on-line você joga, roda, vê o resultado e roda de novo, com outro resultado. Tudo isso de forma muito rápida, enquanto a dopamina é ativada o tempo todo. Isso entra no circuito de recompensa e cria o vício”, afirma.
Como a dependência em apostas possui um processo similar ao das drogas, a reabilitação muitas vezes ocorre nos mesmos espaços. No Espírito Santo, pessoas com dependência em apostas podem buscar apoio gratuito nos Centros de Acolhimento e Atenção Integral sobre Drogas (CAADs), por meio da Rede Abraço, além de grupos como os Jogadores Anônimos.