No dia 8 de maio, quando o governador Renato Casagrande anunciou a reabertura do comércio nos municípios considerados de alto risco para a transmissão do novo coronavírus, a taxa de ocupação dos leitos de UTI destinados a pacientes com a Covid-19 era de 69% na Região Metropolitana, nos últimos dias, a taxa de ocupação já superou a marca dos 83%, o que deveria, no mínimo, ter ligado o sinal de alerta.
No interior, em Colatina, o Hospital e Maternidade Sílvio Avidos, principal da cidade, estava com todos os 13 leitos de UTI ocupados. Inclusive, quando o governador tomou tal decisão, disse que ela poderia ser revista caso, dentre outros fatores, a taxa de lotação das UTIs ultrapasse os 80%. Então, não seria a hora de rever a decisão que permite o funcionamento do comércio? Porém, anteontem, o governador disse que só pensará em novas medidas se a ocupação desses leitos atingir 91%.
De acordo com os dados das Secretarias de Saúde, no último dia 20, a taxa de incidência do coronavírus no Espírito Santo era uma das maiores do Brasil, superior à média nacional e da Região Sudeste. A taxa de incidência no Espírito Santo é próxima à de Estados onde foi decretado o bloqueio total, o famoso “lockdown”.
Mas, aqui, o governo adotou o caminho diverso, mesmo com a perspectiva da piora da situação, escolheu afrouxar as já fracas regras. A incidência pelo coronavírus no Espírito Santo gira em torno de 201,4 para cada 100 mil habitantes; no Brasil, a taxa é de 138,7; no Sudeste, 128,6; no Pará, 210,8. O número oficial de casos confirmados no Espírito Santo só não é maior porque muitos testes estão represados no Laboratório Central, à espera de resultados. Ainda assim, o Estado está entre aqueles com maior número de casos.
Já que muitas lojas estavam funcionando através de delivery, por exemplo, para que abrir todo o comércio senão para levar as pessoas às lojas e conferir vitrines? Obviamente, o comércio não foi autorizado funcionar para fins decorativos. A medida não contribui para a adesão ao isolamento social, ao contrário. O que se vê pelas ruas é que não há fiscalização: comércios abrem fora dos horários e dias previstos, usa-se máscara em vias públicas de acordo com a boa vontade individual, calçadões e praças cada vez mais lotados de “novos esportistas”.
Infelizmente, se a população ainda não tem consciência de seu dever social, cabe ao Estado, que detém o império da força cogente, adotar as medidas cabíveis. Entretanto, o governo tem feito vista grossa. O governo cogita autorizar a abertura de academias e ofereceu a reabertura dos shoppings aos empresários, que recusaram pelo modelo de funcionamento em dias alternados.
Especialistas alertam para a iminência do colapso do sistema de saúde, todavia, a ideia de construção de leitos de campanha ainda é vista com maus olhos pelo governo estadual, que considera “caro demais”. Em vez de investir em sua própria infraestrutura, o governo do Estado prefere insistir no aluguel de leitos da rede privada, desconsiderando que, num futuro não muito distante, podem faltar leitos também na iniciativa privada.
No final das contas, todos são usuários, ao menos em potencial, do SUS. Como bem disse a epidemiologista Ethel Maciel, “nosso maior erro tem sido reagir e não agir”.
O governo estadual precisa se planejar melhor e aprender um pouco com as duras lições sofridas por Estados e países em que cidadãos foram enterrados em valas comuns. Não seria a hora de fechar o comércio e evitar que o Espírito Santo entre para as manchetes nacionais como mais um Estado que sofre com o colapso dos serviços de saúde? Mais ação contra o coronavírus!