É assustador e absolutamente abominável que após três décadas de retomada democrática, conquistada com muito esforço, grupos defendam a intervenção militar e o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, noutras palavras, a volta a um regime autoritário que perseguiu seus próprios cidadãos por pensarem diferente.
Esses movimentos com pedido de um novo “AI-5” começaram em oposição às medidas de isolamento social por ocasião do combate à pandemia do novo coronavírus. Interessante é que aqueles que não suportam uma quarentena para evitar um mal maior causado pela Covid-19, supostamente por interferir no “direito de ir e vir”, defendem, contraditoriamente, um regime em que não apenas o direito de locomoção era cerceado, mas os demais direitos e garantias fundamentais eram ostensivamente tolhidos.
Ao confirmar a retomada democrática, a Constituição da República de 1988 assumiu a feição de um verdadeiro marco recivilizatório da sociedade brasileira. Antes dela, na égide do regime militar, todos aqueles que fossem considerados inimigos do governo eram sumariamente perseguidos: prevalecia a censura de pensamento e de expressão artística, não havia transparência quanto aos atos da administração pública, a tortura era prática corriqueira, o medo institucionalizado predominava e, óbvio, não se tinha o direito de votar efetivamente nem de criticar o governo e se o Estado quisesse, poderia impedir o ir e vir invocando como justificativa uma suposta ameaça comunista, tudo dentro de uma aparente legalidade formal.
Quem defende a ditadura militar não quer o bem do país, pensa apenas em satisfazer interesses próprios. Seu egoísmo se evidencia no ódio às políticas de justiça e inclusão social e na intolerância às pluralidades: de gênero, de pensamento político, cultural, e aí se inclui a democracia, que é plural por essência.
Aliás, se eles não admitem nem mesmo fatos que contrariem seus pensamentos, muito menos respeitam a opinião alheia, porque, na visão deles, a verdade os pertence, e os que questionam são inimigos e só podem estar mal intencionados. Creem que um regime autoritário será capaz de censurar a pluralidade e perpetuar sua ideologia política no poder.
Até porque, se Bolsonaro já chegou ao poder, eleito, que outro interesse haveria por trás da defesa da intervenção, senão perpetuar tal ideologia no poder e impedir que os demais Poderes constituídos corrigissem eventuais medidas tomadas pelo Executivo? É dizer, não basta que tenham ascendido à presidência da República, sua voracidade exige que os poderes do presidente sejam ilimitados, absolutos e perpétuos, impedindo os oposicionistas de, quando for o momento, disputarem legitimamente o cargo.
O cenário desperta maior preocupação porque há crescentes ataques à mídia, tentativas de considerar os opositores como indignos, aceitação e aplauso às respostas violentas e pouco compromisso com as regras do jogo democrático. Ademais, em momentos de crise e de comoção, governantes com tendências autoritárias, como Bolsonaro, podem usar indevidamente suas funções para contornar os mecanismos jurídicos e minar todo o regime democrático e republicano.
Defender a intervenção militar é criminoso, viola a Constituição e a Lei de Segurança Nacional, representa extremo egoísmo e antipatriotismo, já que a figura do líder parece ser mais valiosa que a coletividade do povo brasileiro. Reflete a falta de empatia daqueles que não conseguem se colocar no lugar do outro e, por isso, não aceitam a coexistência de visões distintas quanto à política, quanto à economia e quanto à vida em sociedade em geral.