A crise política e econômica, crescente desde o final do governo de Juscelino Kubitschek, atingiu níveis alarmantes nos primeiros meses de 1964. Esquerda e direita radicalizavam-se e o presidente João Goulart, que inicialmente buscava o entendimento com a oposição, decidiu pela estratégia adotada pelas esquerdas e apoiou o comício em prol das “reformas de base”, isto é, um conjunto de modificações nos setores agrário, urbano, administrativo, tributário e educacional.
O comício, realizado no dia 13 de março, em frente à Central do Brasil, no Rio de Janeiro, reuniu mais de 100 mil pessoas. No palanque, diversas lideranças discursaram incisivamente a favor das reformas, incluindo o presidente Goulart, que defendeu a revisão da Constituição e apelou ao Congresso Nacional para vir “ao encontro das reivindicações populares”. Todavia, as pressões contra os parlamentares não funcionaram e a maior consequência do ato foi acelerar as conspirações visando a derrubada do governo.
De forma rápida, no dia 19 de março, a direita respondeu com a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, ocorrida em São Paulo e organizada por associações religiosas, cívicas e entidades femininas como a Campanha da Mulher pela Democracia (Camde). Nas ruas da capital paulista, cerca de 300 mil pessoas bradaram contra o presidente e as propaladas reformas, as quais consideravam o caminho para a implantação do comunismo no Brasil.
No Espírito Santo, diferentemente da grave instabilidade política das grandes metrópoles, o ambiente permaneceu mais moderado. Aliás, o jornal “A Gazeta”, na edição de 14 de março de 1964, chegou a registrar que os prognósticos pessimistas sobre as consequências do comício fracassaram e que a calma encontrada em todo o país naquele dia sinalizava “um grau de evolução democrática bastante apreciável”.
Efetivamente, ao contrário do noticiado, não havia “grau de evolução democrática” e na sequência o conluio converteu-se em ação. O clima político agitado, a influência das revoluções mundo afora e o embate entre comunismo e capitalismo no auge da Guerra Fria, acabaram por colocar a democracia brasileira em segundo plano, o que ficou claro a partir da postura desafiadora das esquerdas e principalmente quando a direita tomou o poder mediante um golpe civil-militar.
Entre marchas e comícios, todos perderam. A ascensão do novo regime legaria o trauma da censura, da tortura e da morte de opositores políticos, além do desastre econômico. Assim, os 21 anos de autoritarismo, concordando com as palavras de Ferreira Gullar, evidenciam que “a ditadura não serve para nada, senão para tornar a vida pior”. Por fim, complementa o poeta, é necessário “que essa lição se mantenha viva em nossa memória, pois nenhum governo, por mais que prometa, vale o regime democrático”.