Se já não bastasse a preocupação com a condução dada pelo governo federal no combate à pandemia do novo coronavírus, as medidas adotadas pelo governo estadual do Espírito Santo também ligam o sinal de alerta. O primeiro equívoco, logo quando da confirmação dos primeiros casos da Covid-19 em solo capixaba, foi a determinação da redução da frota do transporte coletivo, o que em vez de respeitar as orientações médicas de distanciamento social, acabou gerando filas nos terminais, ônibus lotados, enfim, muita aglomeração. Desconsideraram que muitos dependem do transporte público, inclusive, quem trabalha na linha de frente do combate ao coronavírus.
Depois disso, na contramão da maioria dos Estados brasileiros, o governo estadual entendeu por bem afrouxar as regras e autorizou a reabertura de lojas de chocolates e salões de beleza, considerados pelo governo, à época, serviços essenciais. Desde então, dia após dia, o Palácio Anchieta foi se aproximando do discurso do Palácio do Planalto ao ceder às pressões de empresários pela reabertura do comércio.
É óbvio que há uma grande preocupação com a estabilidade econômica e com a preservação de empregos. Entretanto, ao ser feita uma ponderação razoável, a balança há de pender mais em direção à defesa de vidas.
O governo estadual insiste em não instalar leitos de campanha. Poderia aproveitar a ocasião para aprimorar o sistema público de saúde, porém, prefere alugar leitos em hospitais privados caso o colapso do sistema público venha a ocorrer. Ainda há notícias de contratos superfaturados, falhas na fiscalização de aglomerações, principalmente, nas ruas, nas igrejas e no transporte público, cabendo destacar que os ônibus estão voltando a circular lotados e já saem dos terminais com muitos passageiros em pé.
Antes de afrouxar ainda mais as regras e autorizar a reabertura do comércio de rua, o governo estadual tinha condicionado tal decisão ao aumento do número de leitos, ao crescimento das taxas de isolamento social e à redução nas taxas de infecção e óbitos pelo coronavírus. Essas condicionantes não foram preenchidas, porém, a pressão contra o governador foi tão intensa que, contraditoriamente, acabou permitindo a reabertura de todo o comércio de rua.
Ledo engano cometeu o governo estadual quando acreditou que abrir o comércio em dias alternados mitigaria as consequências negativas da reabertura apressada das lojas. Pelo contrário, se alguém planejava sair de casa em um único dia para fazer compras variadas, pode ser que tenha que sair em dois dias, caso as compras não sejam lojas do mesmo setor. Na prática, as lojas estão funcionando, antes mesmo que o governador autorizasse a reabertura.
A população de Minas Gerais é cinco vezes maior que a capixaba, mas aqui o número de casos e óbitos causados pelo coronavírus é maior e nem por isso as medidas do Estado vizinho são tão brandas quanto aqui. O Espírito Santo não pode viver como uma província isolada que não aprendeu com as lições de outros Estados e países.
Para justificar a reabertura prematura do comércio de rua, o governador quer jogar a responsabilidade para a população. Se não fosse para levar as pessoas às ruas e a consumir, por que teria sido autorizada a reabertura acelerada das lojas? Sim, as pessoas devem ter consciência de seu papel social no combate ao coronavírus, mas, e se elas não têm? O governo estadual vai simplesmente ignorar a realidade, mandando um sonoro (apesar de não pronunciado) “e daí?!”.