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O dilema do governador

Casagrande e os riscos da possível reabertura do comércio no ES

Decisão será tomada por governo estadual neste sábado (2). O momento exige cuidados, por conta do aumento dos indicadores de mortes e contaminação no Brasil e no Estado com a Covid-19

Públicado em 

01 mai 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Casagrande vove o dilema sobre o momento mais adequado para determinar a reabertura do comércio no ES
Casagrande vove o dilema sobre o momento mais adequado para determinar a reabertura do comércio no ES Crédito: Amarildo
Na crise do coronavírus, o governo Casagrande, até agora, tem agido de maneira firme e correta, dos pontos de vista técnico e político. Em contraponto à insistência do presidente Jair Bolsonaro em nem sequer reconhecer a gravidade do problema, o governo do Espírito Santo, desde meados de março, adotou as medidas imprescindíveis aconselhadas por especialistas, seguindo de maneira racional as recomendações prescritas pela OMS e pelo Ministério da Saúde.
Preocupa, no entanto, a possibilidade de o governo estadual determinar a reabertura do comércio no Estado já a partir desta segunda-feira (4), decisão arriscada que pode pôr a perder boa parte do esforço acumulado até agora no sentido de desacelerar o ritmo de expansão do coronavírus no Estado (o famoso “achatamento da curva”). É claro que, para o bem da economia, da geração de emprego e renda, o comércio terá que ser reaberto, de forma progressiva, em algum momento. O que preocupa é o momento atual.
Ao longo desta semana, experimentamos um aumento considerável nos indicadores mais graves da pandemia: o número de casos confirmados de pessoas infectadas e de mortes por Covid-19, tanto no Brasil como no Espírito Santo. Tanto que o novo ministro da Saúde, Nelson Teich (nomeado de supetão para o cargo e ainda se adaptando às funções num momento que não admitiria atrasos), chegou a reconhecer, na última terça-feira (28), o “crescimento da curva” e o “agravamento da situação”. É óbvio que sim!
Os 7.218 novos casos de Covid-19 no Brasil em intervalo de 24 horas de quarta (29) para quinta-feira (30) fizeram com que ficássemos, pelo segundo dia seguido, na segunda posição entre os países que mais registraram novos casos da doença, atrás somente dos Estados Unidos, que somaram 26.512 contaminações pelo coronavírus no mesmo período.
Em relação às mortes nessas 24 horas, as 435 vítimas fatais da Covid-19 no Brasil colocaram o país na terceira posição das nações com mais óbitos pela doença no período, atrás também dos Estados Unidos (2.552 mortes) e do Reino Unido (674 mortes).
Se os mais recentes números já são suficientemente alarmantes, é sempre preciso ter em mente que eles, em verdade, refletem a curva de contágio de 10 ou 15 dias atrás, tempo que os sintomas da doença geralmente têm levado para se manifestarem nos infectados. Ou seja, essas pessoas que entram agora nas estatísticas provavelmente se contagiaram lá atrás, em meados de abril. Já não é a realidade atual em termos de contaminação.
Como se sabe, a curva de contágio cresce exponencialmente. Por isso, neste 1º de maio, enquanto você lê este texto, é muito plausível que ainda mais pessoas estejam espalhando e contraindo o vírus pelo Espírito Santo, o que pode se traduzir, tristemente, em um número quiçá ainda maior de casos de infecção e morte daqui a cerca de 15 dias. O pior ainda não passou. Aliás, ainda não chegamos ao pico da pandemia no Brasil.
Por isso, se for mesmo adotada pelo governo Casagrande, a reabertura dos estabelecimentos comerciais não essenciais terá que se dar de maneira realmente muito gradual e, acima de tudo, respeitando-se protocolos muito rigorosos.
O problema é que a experiência brasileira, em muitas outras partes do país, tem demonstrado que essa flexibilidade não costuma dar muito certo. Na cidade de Blumenau (SC), desde que a prefeitura tomou medida de flexibilização nesse sentido, o número de pacientes infectados por Covid-19 mais do que dobrou. Em 13 de abril, data da reabertura do comércio na cidade, havia 68 casos confirmados, contra 177 totalizados na última terça-feira (28) – um crescimento de 160% em 15 dias.
Falando francamente, os brasileiros em geral têm agido com o que podemos chamar de “displicência coletiva”: tendência a negligenciar a gravidade da pandemia e uma dificuldade ímpar em respeitar todo tipo de limitação. Com todas as restrições à circulação e recomendações de isolamento social, ainda se veem praias e calçadões cheios a esta altura dos acontecimentos! Imagine se lojas forem reabertas em poucos dias, à beira de atingirmos o pico da pandemia.

É PRECISO SER TEMENTE AO VÍRUS

Outro número fundamental nessa tomada de decisão: a Grande Vitória já registra ocupação de 83,3% dos 156 leitos de UTI destinados ao atendimento a pacientes com Covid-19. Na última quarta-feira (29), já havia 130 pessoas internadas por apresentarem quadro clínico agravado da doença. Segundo o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, 90% é o nível crítico. Estamos flertando com ele.
Como disse a pós-doutora em Epidemiologia e professora da Ufes Ethel Maciel, em entrevista a A Gazeta nesta quarta-feira (29), as decisões de isolamento adotadas pelo governo Casagrande até então foram corretas, mas, conforme alertou, “qualquer decisão errada pode colocar a perder tudo o que já fizemos”.
É preciso ser temente ao vírus. Não se pode perder o respeito por sua letalidade.
Não se trata de ser profeta do apocalipse ou do caos. Apenas de ser realista, num momento em que talvez seja melhor errar por excesso de prudência e diligência do que por algum descuido. O caos já está batendo à porta, na forma de colapso da rede hospitalar. 
Como disse o próprio Casagrande diretamente ao presidente Jair Bolsonaro, governantes não podem nem devem “pagar para ver”. A frase exata foi na 1ª pessoa: "Não posso pagar pra ver". Isso em videoconferência realizada com governadores do Sul e do Sudeste no dia 25 de março, princípio da pandemia no Brasil – quadro bem menos grave que agora. Se era uma assertiva correta há seis semanas, por que não haveria de ser agora que o cenário requer ainda mais cautela?
Diante do exposto e com base no que indicam as estatísticas, parece-me fundado o receio de que eventual decisão de reabertura do comércio neste momento acabe se provando prematura e precipitada, em muito pouco tempo, levando o governo Casagrande a precisar correr para revogá-la. A decisão, segundo Casagrande, deverá ser tomada neste sábado (2). Agradar a todos será sempre impossível.
Dependendo do ponto de vista, decidir pela reabertura agora pode ser ruim para o governo Casagrande (potencialmente, maior taxa de infecção dos capixabas); decidir o contrário também pode ser ruim para ele (pressão ainda maior por parte dos comerciantes). Mas, politicamente falando, nenhum ônus há de ser maior que o de tomar uma decisão para precisar recuar logo em seguida, no estilo Jair Bolsonaro.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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