O fenômeno da Covid-19 deverá impactar a vida das pessoas no dia a dia, funcionando como acelerador, seja no seu comportamento em relação ao convívio com outras pessoas, com a própria vida, no consumo, na mobilidade, na produção de riqueza e em vários outros campos da realidade. Mas algumas dimensões, essas bem mais amplas, estruturantes e abrangentes, e que já começam a mostrar sinais de movimentos, dizem respeito às relações entre Estado e sociedade, e entre Estado e mercado.
Atentemos apenas para o segundo caso. Ao longo da história do capitalismo, essa relação entre Estado e mercado registrou movimentos pendulares, ora indo mais ao Estado, ora mais ao mercado. Ou seja, diferentes circunstâncias e confluências de fatores, por exemplo, ensejaram concepções e operações de Estados mais intervencionistas, com o extremismo do Estado totalitário centralizado.
Foi assim na antiga União Soviética, e hoje em países como Cuba e Coreia do Norte. Já no outro extremo, temos a figura do Estado liberal, com o protagonismo de mecanismos de mercado, exemplificado na figura dos Estados Unidos. Nesse intervalo, vamos encontrar variadas combinações.
Nesse movimento pendular, o que se tem observado em anos recentes foi o surgimento do que está sendo denominado de Capitalismo de Estado, que combina intervencionismo estatal convivendo com o mercado. A China é o modelo típico dessa combinação, seguindo-se Rússia e Índia. O Brasil, a seu modo, tentou essa combinação no governo de Dilma Rousseff, com a eleição de empresas campeãs, felizmente, sem êxito. Quem chamou a atenção mais enfaticamente para esse movimento foi o pesquisador Yan Bremmer, ao lançar em 2010 o seu livro “The endo f the Free Market”.
Mas o que quero chamar a atenção para o momento é que já se observam indicações de que a pandemia da Covid-19 está servindo como mote motivacional para o direcionamento pendular orientado para o fortalecimento do Estado em relação ao mercado. Podemos citar como exemplo, dentre outros, o caso da Alemanha, onde a primeira ministra Ângela Merkel encontrou espaço para a adoção de medidas extraordinárias destinadas a soerguer a economia, com compra de participação do Estado em empresas consideradas estratégicas – campeãs nacionais.
Na mesma direção parece caminhar o Brasil. O próprio Paulo Guedes, um liberal convicto, já adiantou a possibilidade de o governo federal comprar ações de empresas consideradas também estratégicas. Nessa contenda, a China parece caminhar mais velozmente.