Construímos um mundo onde o crescer e o desenvolver acontecem respaldados por um forte e crescente comércio mundial, acompanhados pela facilitação, também de forma crescente, da mobilidade das pessoas. A força do progresso, servindo-se dos avanços tecnológicos, fez encurtar as distâncias físicas e virtuais entre entes econômicos, instituições, sociedades, nações, culturas e pessoas.
Esse mundo literalmente trombou com o novo coronavírus. O certo é que não se vislumbrava no radar algo tão extraordinariamente devastador quanto ele. O mundo não será como antes!
A pandemia da Covid-19 coloca o mundo em choque, fazendo-nos viver e conviver em espaços murados, algo como cidades muradas da Idade Média. Lá atrás, além de servirem de proteção contra inimigos reais, invasores visíveis, também impunham barreiras às pestes, tão comuns à época. As “muralhas” que se constroem no momento e que provocam distanciamentos entre pessoas, processos produtivos e instituições, têm não somente o sentido da proteção, mas traz também a motivação à reflexão sobre como será esse novo mundo.
Nos reportando especificamente ao mundo da economia, essa pandemia já provocou severas rupturas em cadeias globais de valor; aquelas cadeias produtivas de longo curso e que funcionam baseadas em ampla, diversificada e, muitas vezes, sofisticadas redes de suprimentos. Essas rupturas, já bem evidentes em determinados setores, como o da saúde, desnudam, por exemplo, excessivas exposições a riscos decorrentes da forte concentração de bases de suprimentos em um número reduzidos de países e fornecedores, especialmente asiáticos, com protagonismo da China.
Nesse aspecto, o Ocidente se vê hoje na dependência daquele país para fornecimento de equipamentos e suprimentos essenciais no combate ao Covid-19. O Brasil que o diga.
É previsível, por conta da pandemia, que países, grandes grupos econômicos e setores inteiros passem a rever suas estratégias globais de operação. Países, com a lição aprendida, estarão buscando maior segurança e proteção aos seus cidadãos; empresas e setores, reposicionando-se em relação aos seus mercados supridores e diversificando-os.
Crises, é importante lembrar, não geram somente ameaças, mas também oportunidades. Essa reconfiguração comercial em escala global que emergirá no pós-pandemia poderá representar também oportunidades para o Brasil. E para o Espírito Santo também, já que este detém vivência e experiência em comércio internacional. O momento é de administrar a crise sem, no entanto, perder de vista a construção do futuro.