Como será o mundo após a pandemia? Viveremos uma recuperação em formato de V, U ou L? Muito se tem especulado sobre os desdobramentos da pandemia de coronavírus (Covid-19) e como seria o novo futuro após a crise. Nessas horas incertas, como muito bem expressou o filósofo Paul Valéry (1871-1945), na década de 1920, é possível dizer que o futuro não será mais como antes. Afinal, quais são as perspectivas para o Espírito Santo e o Brasil?
Segundo Paul Romer, laureado com o Prêmio do Banco Real Sueco de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, “a única forma de recuperar a economia é controlando o vírus” (El País Brasil, 11/05/2020). As medidas de isolamento social são úteis entre nós, ainda que os índices de isolamento social disponíveis tenham mostrado que eles estiveram recorrentemente abaixo das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Tendo em vista que a transmissão do vírus vem sendo alta e que a testagem vem sendo relativamente baixa no Brasil, não devemos descartar um lockdown (confinamento) logo adiante. O custo do relaxamento das políticas de isolamento social foi subestimado no Brasil, infelizmente.
Antes da pandemia de Covid-19, os indicadores sociais e econômicos brasileiros, segundo o IBGE, revelavam a fragilidade da recuperação da recessão de 2015 e 2016. As desigualdades sociais vinham crescendo desde 2016 e a informalidade laboral também. O Espírito Santo acompanhou o quadro distópico nacional. Nesse sentido, sua política de desenvolvimento regional precisa ser rediscutida a partir de outras perspectivas.
Ela deverá buscar ser mais sustentável do ponto de vista ambiental após a pandemia e comprometida efetivamente com a redução das desigualdades sociais extremas, algo que precisará passar, em alguma medida, pelo aumento da sofisticação da estrutura produtiva capixaba. Será preciso avaliar a eficácia dos incentivos fiscais estaduais, além de reduzir a sonegação fiscal anual.
O Espírito Santo possui um grau de abertura comercial superior à média da economia brasileira e há diferenças significativas de conteúdos tecnológicos entre o que é exportado e o que é importado pelo seu território. Em relação ao processo de globalização, hoje questionado pela pandemia de Coronavírus (Covid-19), é preciso atentar para o risco e as consequências de que as cadeias globais de valor sejam distribuídas no sentido de que os países desenvolvidos fiquem com os postos de trabalhos mais qualificados, com as melhores remunerações, e que os países não desenvolvidos se especializem nas atividades que os países ricos não possam automatizar, de baixas possibilidades inovativas e produtividade intrínseca.
Ficar preso na armadilha da renda média traz riscos à democracia, conforme estamos testemunhando no Brasil. Grandes retrocessos institucionais, econômicos e sociais são possíveis. Os países especializados em atividades malthusianas permanecerão pobres e com elevada concentração de renda, enquanto países especializados em atividades schumpeterianas serão capazes de elevar o nível de seus salários e atingir padrões de vida maiores.
Do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, a especialização malthusiana é perigosa porque ela está vinculada a rendimentos decrescentes de escala, a círculos viciosos de pobreza, a grandes pressões sobre os recursos naturais e a uma baixa produtividade.
De acordo com o historiador austríaco Walter Scheidel, da Universidade de Stanford, a pandemia de Covid-19 aumentará a desigualdade em uma hora muito infeliz para Brasil (Folha de S. Paulo, 18/05/2020). Segundo pondera Scheidel em relação ao processo de reversão da redução das desigualdades na América Latina, “não chega a surpreender se levarmos em conta o quão profundamente arraigado está o conservadorismo nessas sociedades. Isso talvez fosse até inevitável. E tudo talvez fique ainda pior com a crise em andamento agora”.
A inserção produtiva da região nas cadeias globais de valor encontra-se em sintonia com o grau de concentração de rendas e riquezas nessas sociedades.
O processo de desenvolvimento é multidimensional, complexo por natureza. Nesse sentido, destaco o livro de Justin Y. Lin, “Economic development and transition” (2009), ex-economista-chefe do Banco Mundial. Lin mostra como a adoção de uma estratégia dinâmica de desenvolvimento guiada por vantagens comparativas representa um caminho gradualista eficiente para buscar subir a escada do desenvolvimento econômico e social.
Nesse modelo, a política industrial é inteligentemente utilizada pelo governo para coordenar as firmas de diferentes indústrias e setores para a atualização (upgrading) tecnológica e industrial. Seguindo essa estratégica gradualista e dinâmica de construção de capacidades produtivas, o governo deve ainda investir em infraestrutura e fortalecer as instituições voltadas para o desenvolvimento econômico e social. O Brasil precisa escapar da armadilha da renda média e o Espírito Santo precisa ir além do seu segundo ciclo de desenvolvimento.
Paul Krugman, laureado com o Prêmio do Banco Real Sueco de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, pondera que ainda precisamos pensar no enfrentamento da pandemia (Folha de S. Paulo, 19/05/2020). Em relação ao funcionamento pleno da economia, Krugman afirma que “a abertura prematura pode resultar em centenas de milhares de mortes – e gerar resultados adversos mesmo em termos econômicos, já que uma segunda onda de infecções poderia nos forçar a voltar ao confinamento”.
Devemos ajudar os trabalhadores e as empresas na crise, sustentando suas rendas. O novo normal é de gasto público deficitário, com os bancos centrais financiando diretamente os governos.
No Brasil, a tentativa de retomar o distópico caminho das reformas, o “liberalismo primário dos fiscalistas”, de acordo com o economista André Lara Resende, enfrentará a marcha dos acontecimentos dos danos causados pela pandemia. Efeitos de histerese afetarão dramaticamente as empresas e o mercado de trabalho. Na ausência de um boom de commodities, que ajudou a construir reputações políticas e a reduzir marginalmente as desigualdades sociais anteriormente, as perspectivas são ruins para os capixabas e o Brasil. Desemprego, pobreza, desigualdades sociais extremas e desvalorizações cambiais são dramas do presente. Não é mais satisfatório fazer “mais do mesmo”.