Não há grandes dúvidas de que passamos por um momento dramático. A necessidade de salvar vidas humanas modificou as rotinas sociais em diversas escalas e dimensões em diversos países que enfrentam a crise do coronavírus (Covid-19). O termo “economia de guerra” já circulou na imprensa brasileira e tal fato merece algumas considerações críticas.
Nesse sentido, descreverei brevemente alguns pontos relevantes a partir de uma nota técnica escrita com dois colegas do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), com os professores Luiz Henrique Faria e Cíntia Tavares, sobre as cadeias de suprimentos, mais especificamente sobre a capacidade das mesmas em dar respostas satisfatórias para o momento de crise.
Sobre a atual gravidade da crise da covid-19, em sua coluna na "Folha de S. Paulo", publicada no dia 20 de março, o jornalista Vinícius Torres Freire ponderou que “em momentos de calamidade oficial e similares, a lei prevê intervenções estatais na atividade econômica, as quais podem incluir tabelamentos ou requisições. Tabelamentos tendem a não funcionar, exceto em situações de guerra de fato. De resto, não adianta fazer requisições se não há produtos, assim como não adianta tabelar o preço do que não existe”.
Em síntese, ainda segundo o jornalista, que é mestre em administração pública, “são necessários o controle e o estímulo da produção de bens essenciais, a começar por aqueles de uso médico-hospitalar, caso não exista material suficiente para o serviço de cuidar dos feridos, doentes, e dar instrumentos aos profissionais da saúde. Esperar que a escassez também se espalhe de modo epidêmico é jogar com a morte”.
Expectativas de queda da economia brasileira estão circulando na imprensa e impressionam pelas perspectivas do tamanho do tombo, que afetará o precarizado mercado de trabalho. Qualquer estimativa mais precisa se mostra repleta de incompletudes e incertezas. Entretanto, acreditamos ser possível buscar raciocinar de forma crítica, responsável e preventiva a partir do último choque enfrentado pelas cadeias de suprimentos brasileiras, aquele ocorrido na crise dos caminhoneiros, em 2018.
Naquela crise, houve um impacto inflacionário, sendo que o grupo alimentação e bebidas foi o que mais influenciou o resultado mensal em junho daquele ano. De acordo com a matéria no G1, publicada no dia 6 de julho de 2018, assinada por Daniel Silveira e Marta Cavallini, “as principais altas ficaram com o leite longa vida (de 2,65% em maio para 15,63% em junho) e o frango inteiro (de -0,99% em maio para 8,02% em junho)”.
A inflação de serviços, por sua vez, caiu naquela crise de 2018. Caíram também as confianças na economia de empresários e consumidores naquele período. Guardadas as devidas proporções e distâncias temporais, há quem avalie riscos inflacionários na crise da covid-19, ainda que se espere a redução do nível geral das atividades econômicas.
Para o professor Roberto Dumas, do Insper, “não nos resta dúvida de que se trata de um choque de demanda, externalizado pela queda do preço das commodities, mas também nos parece ser um choque de oferta, com a queda de produção de vários produtos, desde automóveis a eletroeletrônicos” (Folha de S. Paulo, 11/02/2020). Não nos parece que um grande problema social possa vir a ocorrer a partir da escassez de itens de consumo não básicos para a manutenção da vida humana nesta grave crise da covid-19.
Em uma sociedade possuidora de desigualdades sociais extremas, históricas e estruturais, como é o caso brasileiro, garantir o amplo acesso aos itens básicos para a manutenção da vida humana merece a atenção e a ação preventiva de gestores públicos e autoridades responsáveis. Afinal, em situações análogas à “economia de guerra” é comum o convívio social com alguma escassez relativa de bens e o controle governamental sobre a compra e a produção de itens básicos.
O governo federal deveria coordenar os esforços no Brasil. Nos últimos anos, entretanto, segundo as informações disponíveis, foram praticamente zerados os estoques estratégicos de alimentos no Brasil. Os estoques públicos viabilizam um programa fundamental para os momentos de crise: a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM).
Para que esses estoques estratégicos sejam formados, o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA) precisa funcionar. A crise da covid-19 expõe as muitas fragilidades brasileiras, inclusive as fragilidades e vulnerabilidades que cresceram com a agenda reformista desde 2016: informalidade e desigualdades sociais.
Recentemente, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que os supermercados têm estoques de 60 dias e que não há perigo de desabastecimento. Ela ainda ressaltou que prepara um plano para assegurar o abastecimento de alimentos, desde a fazenda ao supermercado.
No entanto, chama a nossa atenção a descoordenação de opiniões e ações entre a instância federal e os governos estaduais. Estes últimos foram obrigados pela realidade objetiva a ocupar o vácuo de liderança deixado pelo governo federal no primeiro momento da atual crise.
O governo federal se mostrou muito reticente e tímido em anunciar medidas efetivas para o real enfrentamento da crise, no que diz respeito às necessárias defesas da economia nacional e da renda dos trabalhadores. Considerando o arsenal de medidas mobilizado em outros países, as medidas brasileiras foram vistas como insuficientes para o enfrentamento da crise.
A globalização das cadeias de valor certamente possui a sua cota de responsabilidade pela perda de autonomia relativa dos países. O Institute for Supply Management, instalado nos EUA, revelou que quase 75% das empresas que contatou no final de fevereiro e no início de março relataram algum tipo de interrupção na cadeia de suprimentos devido ao covid-19 e 44% das firmas não tinham plano para lidar com esse tipo de interrupção.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem pedindo aos fabricantes que aumentem a produção de equipamentos de proteção individual para os profissionais de saúde. Tal contexto de “guerra” demanda a coordenação de planos e ações governamentais para que o risco da escassez de itens básicos à manutenção da vida humana não venha a provocar graves e desnecessários distúrbios sociais nesta crise. O momento é de união na defesa da vida humana.