Meu pai se emocionava todas as vezes em que contava suas lembranças da Gripe Espanhola em Vitória. Eram os anos 1918 e ele, menino de nove anos, morava com a família em uma casa situada atrás da Catedral Metropolitana. Seu relato citava as casas envoltas em mosqueteiros e as carroças da limpeza pública que passavam, diariamente, nas ruas recolhendo os corpos das pessoas mortas.
A internet nos traz informações do horror da Gripe Espanhola. Uma das postagens mostra a capa do jornal “Gazeta de Notícias”, do Rio de Janeiro, de 18/10/1918, com a manchete “O Rio é um vasto hospital!” com os subtítulos “A invasão da Influenza Espanhola”, “Não há médicos, não há remédios”. O editorial é ainda mais contundente: “Socorro!”.
No Brasil, a Gripe Espanhola se espalhou rapidamente em um mês. O senador Paulo de Frontin ficou combalido várias semanas até se recuperar. O presidente Rodrigues Alves não teve a mesma sorte: ficou doente e morreu. As aglomerações foram proibidas e as pessoas impedidas de irem aos cemitérios no dia de finados. Calcula-se que a Gripe Espanhola tenha matado 50 milhões de pessoas no mundo, quase seis vezes mais do que a Primeira Guerra Mundial.
Um século depois, eis que nos defrontamos com algo tão ou mais grave que a Gripe Espanhola. O coronavírus se alastra pelo mundo, fecha países, interrompe viagens e paralisa a economia. No Brasil, a trajetória da quantidade de infectados e de mortos não para de crescer. Os governos procuram adotar o que é o único caminho apontado pelas autoridades de saúde: o isolamento social. A tentativa é a de, na impossibilidade de debelar o vírus, que pelo menos seja desacelerada a sua disseminação.
Num momento assim, tão grave para a humanidade e de tantos prejuízos para todos, os poderes públicos e a sociedade deveriam se dar as mãos, cada um fazendo a sua parte para minimizar as perdas. Uma receita tão simples e óbvia que, infelizmente, não tem sido seguida.
Os poderes públicos buscam fazer política com a crise, com olhos nas próximas eleições – tendo como destaque negativo o próprio presidente da República que, ao invés de dar demonstrações de equilíbrio e bom senso, é talvez o maior incendiário dos debates –, e boa parte das pessoas se digladia em panelaços, xingamentos mútuos e perda de energia com discussões menores nas redes sociais.
Que Deus nos ajude a aprender que, diante de uma crise de tão grandes proporções, a união de todos é a única alternativa para enfrentar a doença e esperar passar a tempestade. Até porque ainda haverá o tempo de reconstrução que continuará exigindo sacrifícios de todos nós. Ainda há tempo para aprender. Só depende de cada um de nós.