Madrugada dessas, estava lendo, neste momento em que somos obrigatoriamente levados a pensar e refletir o próprio sentido da vida, quando meu pensamento levou-me aos juízes de um modo geral, especialmente aos das supremas instâncias.
Penso nessas pessoas dentro das togas que são obrigadas a não usar o afeto, mas o trabalhoso raciocínio e lógica em seus complexos e muitas vezes dolorosos julgamentos e insólitas decisões.
Se é verdade o que Sigmund Freud postulou, afirmando que não há instante na vida em que seja possível abster-se do próprio Inconsciente, onde mora o afeto e, em última instância, a vida, levou-me a pensar com força.
Ninguém que tenha qualquer intimidade com a doutrina psicanalítica haverá de negar. É impossível, por um instante sequer, abster-se de sentir, o que é – na verdade - julgar internamente.
Ultimamente, tenho assistido magistrados explicando e justificando suas decisões, ou outras intervenções, muitas vezes contrariando poderes iguais aos seus. Não é necessário uma grande formação acadêmica para que uma pessoa exerça sem erros, só acertos, essa função quase impossível, dada à sua complexidade, do jeito que viu Edgar Morin. Mas integrar corpo e mente exige saúde mental e baita aprofundamento na filosofia das relações de objeto. Lidar com o sentir.
Dia desses, relendo os que mais me fascinam - intelectual não lê, relê – o artigo em “Privação e Delinquência”, de Donald Winnicott, dei de cara com um trecho que marquei. Falava sobre o que insubstituivelmente nos envolve o tempo todo, e não teria outro jeito de ser, o afeto.
Com o título “Uma palestra para magistrados”, de 1946, convida a um exame da exposição “Inconsciente e seu Significado”. Esse texto é dirigido a magistrados britânicos, que estão, por sua formação e exercício, habituados a pesar provas, a refletir sobre as coisas e a senti-las.
Nesse sentido, a contribuição de Freud foi realmente útil. Ele mostrou que ao substituirmos o sentimento pela reflexão, deixamos de fora, ignoramos o Inconsciente, cometendo, assim, sérios erros de fato, sem que isso seja ingenuidade. O Inconsciente pode ser um estorvo para quem gosta de tudo simples e arrumado. Mas, decididamente, não pode ser ignorado por planejadores e pensadores.
Acho que é possível “ser você mesmo”, com seu Inconsciente bastante incluído, e exercer um julgamento. Muitas vezes fazemos isso no consultório onde existe uma lei acadêmica, a formação adequada. Porém, o conjunto da experiência – também conhecido como intuição – nos entrega a intervenção consciente, à interpretação psicanalítica.
A tendência que uma pessoa tem de considerar a interpretação clínica como uma bela invenção do outro mundo, é um trabalho de Hércules para todo e qualquer psicoterapia. As convicções, mesmo as mais elaboradas, nos cobrem com uma grossa camada de veludo e aço, e pode nos cegar.
Quando me especializei em Medicina Psicossomática – a ideia do corpo integrado à mente – passei por poucas e boas. Imagine, como experimentou Michael Balint, um grupo de pacientes que revezavam distúrbios intestinais com sintomas dolorosos de neurose compulsivo obsessiva. Perceber profissionalmente corpo como uno, parece uma ideia, não parece uma coisa. Então.
De todas as tarefas de Hércules no território da Psicopatologia, a mais pesada é atestar a normalidade.
Exerço a tarefa de perito para a Justiça Federal há anos. Apesar da limitação e “pragmatismo” de alguns advogados percebo nos quesitos da grande maioria dos magistrados, sutil e rara inteligência, a ponto de compreenderem a subjetividade da maioria das minhas respostas, fora de seus territórios específicos.
Uma vez fui convocado a comparecer a um tribunal para explicitar minhas redondilhas e estilo de resposta muito espaçoso. Encontrei um jovem juiz que se dispôs a me escutar. O advogado do periciando, a mim enviado, havia feito – no meu entender – perguntas que incluíam as respostas, por exemplo.
A maioria dos quesitos que apontam para um diagnóstico psicopatológico exige definições, as mais complexas, que caibam no menor espaço. Naquele dia, dentro da sala especial, fiquei extremamente gratificado ao ver que o juiz se interessava verdadeiramente pelo argumento. E letras. Falei para minha fiel escudeira secretária o que todo mundo sabe: há ainda muita vida inteligente e ética entre os juízes e semelhantes.
O que não há é a integração do Consciente com o Inconsciente.
Uma das muitas teorias do grupo de estudos, do qual participava Melanie Klein, versava sobre a “normalidade” “Como é a criança normal?
Ela simplesmente come, cresce e sorri docemente? Não, não é assim. Para ser plena de suas possibilidades, se tem a confiança do pai e da mãe, usa todos os meios possíveis para se impor. Com o passar do tempo, põe à prova o seu poder de desintegrar, destruir, assustar, cansar, fazer cansar, manobrar, consumir e apropriar-se.
Tudo o que leva as pessoas aos tribunais (ou aos manicômios, pouco importa no caso), tem seu equivalente natural na infância, na reação da criança com seu próprio lar. Se o lar consegue suportar tudo o que a criança pode fazer para desorganizá-lo, ela sossega, e sabe o quê? Vai brincar.
Mas vamos aos negócios. A criança é especialmente sensível à estabilidade econômica da família. Sua vida depende disso. Precisa saber como vai o lar, que é muito mais do que “casa”.
Antes de mais nada, a criança precisa estar consciente de um quadro de referência se quiser (pode não querer) sentir-se livre e, se quiser, ser capaz de brincar fabricando peças de seu mundo interno, seus próprios desenhos (e não necessariamente os já acabados).
Ter o poder, que vem da necessidade, de ser uma maravilhosa criança irresponsável.
Dorian Gray, meu cão de estimação, não quis tomar banho.