Em 16 de dezembro de 1939, a estupidez nazista estava no auge do seu alienado destino e lançava todo o potencial bélico contra a Inglaterra, que recuava desesperadamente. Os perversos ignorantes não tinham objetivo, metas a alcançar, era guerrear por guerrear, matar por matar. Não havia, como não há, uma gota de inteligência no nazismo.
Na falta de motivo, pois não sabiam quando e onde parar de matar, e o significado disso, seguiam a ideologia básica: amedrontar e deificar-se. Isso constituía uma dificuldade para a defesa inglesa que só tinha uma opção: recuar. A defesa de Londres se tornava impossível. A cada ataque os nazistas apresentavam sinais de um novo plano de assassinato em massa.
Não havia qualquer racionalidade nas intenções de Hitler. Falsearam inimigos espalhados pelo mundo, os judeus principalmente, e assim poderiam inventar uma direção e sentido. Some-se a isso o antissemitismo nos próprios países atacados, que, como todos os preconceitos, criava razões, as mais dissociadas do pensamento ético, para justificar as ações de assassinato em massa, essencialmente pueris, e de passagem roubavam, estupravam, escravizavam.
Criou-se um pandemônio.
Toda a Europa, por mais medidas de precaução que tivesse em mãos, não tornava possível prever o desenho do próximo ataque alemão.
Este artigo tem a intenção de mostrar a resistência de um grupo de psiquiatras, que em baixo dos porões e abrigos, preocupava-se essencialmente com as pequenas crianças. Aliás, ninguém desconfia da angústia das crianças brasileiras, neste momento, diante do pavor dos familiares, que assim não podem exercer a maternagem e a lei paterna.
Os médicos comprometidos com o seu lugar no mundo trabalharam em atendimentos grupais ou individuais dentro dos abrigos subterrâneos ou onde fosse minimamente possível.
Foi assim que na data citada os psiquiatras John Bowlby, Emanuel Miller e Donald Winicott enviaram uma carta ao British Medical Journal, ainda em funcionamento.
“Senhor editor-chefe: A evacuação de crianças entre 2 e 5 anos envolve sérios problemas psicológicos. Existem muitos planos, e antes que se finalizem, desejamos chamar a atenção para o problema”.
Os experientes terapeutas explicam a interferência do medo e outras amargas privações, como a morte em grande escala e os bombardeios, na formação da identidade psicossomática, o verdadeiro self, que nesse período de vida implica em perigos que quase não existem nas crianças mais velhas.
Acima de cinco anos, em média, eram suficientemente capazes de suportar as separações do lar e até beneficiar-se disso para adquirir a capacidade de suportar frustrações e perdas.
Como estarão nossas brasileiras crianças entre dois e cinco anos neste pandemônio de terror, onde a única coisa que se sabe é que o inimigo mata, e rapidamente? Muito mais perdidas que a defesa de Londres na Segunda Guerra Mundial, criam-se factóides para confundir o humor da população e governar sob o domínio da ignorância e da paranoia.
O fenômeno que ocorre no enfrentamento da tragédia de 2 a 5 anos, acontece no Brasil quando a população sem pai nem mãe “brinca” de desobedecer as regras de sobrevivência eficazes, como o distanciamento social, por exemplo. Essa “infantilização” custa caro. O trabalho com corações e mentes das pessoas exige muito mais que palpites infelizes e basicamente infantis de profissionais inexperientes.
Entre muitas pesquisas sobre o assunto, vale a pena citar uma recente investigação levada a efeitos por reconhecidos psicanalistas de crianças, na Child Guidance Clinic, de Londres. O estudo mostrou que um importante fator externo na causação da delinquência persistente é a separação prolongada de uma criança pequena de sua mãe. Mais da metade dos grupos de delinquentes juvenis pesquisados, estatisticamente válidos, sofreram separação da mãe e do ambiente familiar por mais de seis meses, durante os cinco primeiros anos de vida.
Neste palco iluminado de parco saber que monitora a pandemia tupiniquim, quando a prioridade é encontrar sistemas confiáveis que só podem ser feitos por lideranças capazes tecnicamente, e por isso confiáveis e passiveis de obediência civil.
Passado os cinco anos, a pessoa é capaz de confiar e suportar frustrações, por memória vivida, dado à experiência com os pais ou substitutos, seja lá em que condições forem. Nos campos de concentração nazistas sobreviveram famílias inteiras em seu psiquismo, apesar de toda a perversidade polimorfa a que foram obrigadas a submeter-se. Aqui, como lá, apresenta-se a morte e o morrer como inimigos imbatíveis, como os nazistas.
A coerência política das lideranças do país faz parte do tratamento contra a virose, especialmente se respeitado o sofrimento.
Estamos todos nessa cruel metáfora de abrigos - ante não se sabe o quê - e nas prisões domiciliares. Na impossibilidade de pensar, criamos ícones neste mambembe jogo de xadrez que não tem fim programado, não tem regras confiáveis, tudo isso, aliás, acrescido à violência das ruas.
Isso não é privilégio do ministro Dias Tófolli.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, surtou paranoia.