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Médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio

Na insolvência política, os salvadores da pátria resolvem abrir um bar

Todo santo sábado tornamo-nos inseparáveis até as três horas da tarde, mais ou menos, a Turma do Boulevard.

Publicado em 17/12/2019 às 04h00
Atualizado em 17/12/2019 às 04h00
Mesa de bar. Crédito: Divulgação
Mesa de bar. Crédito: Divulgação

Já se vão 30 anos, ou mais. Jamais nenhum de nós foi convidado para a Academia de Letras, o que agradecemos de coração. Passamos o tempo todo a fazer frases e gastar afeto e humor – nada sério, graças a Deus. Não falamos de política, o que, claro, é uma óbvia política. Somos incontáveis porque não contamos pela aritmética, mas pretendemos contar pela harmonia.

São poucas as mulheres – boa gente – que visitam a mesa e nós a chamamos de esperança. Nunca soube o por quê. E nem se pergunta intimidades. As mesas, depende. Variam com o índice de tolerabilidade dos "bat" locais.

Todo santo sábado tornamo-nos inseparáveis até as três horas da tarde, mais ou menos, a Turma do Boulevard. Apesar de todo nosso esforço, e já se vão mais de 30 anos, o mundo roda da mesmíssima maneira e não está nem aí para o também conhecido poderoso exército de Brancaleone que constituímos.

Toma-se vinho do bom. Mas deixa eu explicar. Sei disso porque colei de um expert da turma, já que minha cultura sobre tal forma de suco de uva não passa do reconhecimento sincero do “Sangue de Boi”. Quando chega o deadline dos horários, os casados são recolhidos pelas legítimas esposas que lá de fora do pátio do restaurante abrem a porta do bagageiro e buzinam freneticamente.

É a delicada senha do veículo, conhecido, entre nós, é claro, como “Carrocinha”. Ninguém reage que não é besta. Lembramos dos conselhos de São Francisco de Assis: “Comece por fazer o necessário, isto é, nada, depois o que é possível e quem sabe um dia fará o impossível”.

Os identificados em segunda instância saem praticamente enfileirados rumo ao veículo oficial. Ninguém comenta nada sobre isso, fiéis à oração boêmia que fala da autonomia. Somos a favor da ideia segundo a qual existem três tipos de pessoas: as que fazem acontecer, as que deixam acontecer e as que perguntam o que aconteceu. Cada um de nós classifica-se em silêncio e não se fala mais nisso.

Já fechamos muitos restaurantes e bares, no sentido literal, especialmente quando usamos música instrumental, com cantor.

Embora falemos todos ao mesmo tempo, ninguém se desentende. Nem entende. Como sabemos que o que destrói a criatividade é o senso do ridículo, o plágio funciona mais rápido, não economizamos. Temos tipos para todos os gostos, estilos e fantasias. Isto é um grupo que deveria ser imitado pelas instituições que ditam leis e as fazem – fazem? – obedecê-las.

Paira também no pedaço insólitos discursos e alguns de nós que, com todo o direito, defendem a tese e a praticam, segundo a qual o professor e o aluno se encontram no mesmo indivíduo. Isso define o chato. Somos abertos a qualquer discurso.

Até o esqueleto no armário desenhado por Bernard Shaw, que escreveu Pigmaleão, foi lembrado. “Se você não puder se livrar do esqueleto em seu armário – alguém que se escondeu e trancou a porta – é melhor ensiná-lo a dançar do que desvendá-lo".

Até a Golda Meir, a israelense, que a exemplo de Moisés conduziu o povo de Deus não se sabe para onde, já foi citada. Teria dito: “Não seja humilde, você não é tão importante assim”.

Todos os membros da nossa derradeira mesa – sejamos realistas - chegaram ao topo da carreira acadêmica. E a idosa de fino trato, que toma assento na mesa ao lado e ostenta no pescoço uma medalha de ouro com Nossa Senhora carregando o menino Jesus, não o do Flamengo, o outro, retruca toda semana: Isso é um absurdo. Só dizem besteira. E falam tão baixo que não consigo ouvir. Será providenciado.

Nem sempre reconhecidos filósofos são citados e dissecados nesse minúsculo museu de arte saltitante. Neném Prancha, por exemplo, insuperável e pioneiro treinador de futebol de areia, em Copacabana, no Rio, deixou para a história algumas frases copiadas até hoje, inclusive, e muito principalmente, pelo locutor que vos fala. “Quem corre é a bola. Se fosse correria era só fazer um time de batedores de carteira”, “Se macumba ganhasse jogo, futebol baiano terminava empatado”, ”Pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”.

Aproveito para outorgar nossa especial homenagem a um gênio da estratégia, que viveu entre 1906 e 1976 e foi olheiro competente, “tético” (chamava treinador de atletas na areia de “tético”) era, claro, pobre de marré deci.

Em um país onde quase todas as grandes autoridades, de quase todos os poderes, só pensam em dinheiro para engordar os já obesos salários, é obsceno que consigam conviver com os miseráveis, seus patriotas que vivem no lixo e no esgoto. Mesmo empurrando goela adentro de toda a população, um Flamengo para anestesiar o povo, este continua morrendo de fome, de falta de cuidado, de falta de medicina, de falta de tudo. Por mais que a propaganda alienada, ou se fazendo de, tente resumir a angústia e a necessidade em um time, este não vai aguentar.

Diga aí senhora, deveria?

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