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Saúde

Quem é o coronavírus perto da epidemia de doenças renais crônicas no ES?

Nada menos que 2,9 mil pacientes buscam tratamento – alguns internados – de nefropatia grave, que leva frequentemente à morte. As doações não chegam nem de longe às necessidades do transplante renal

Públicado em 

10 mar 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Insuficiência renal Crédito: Divulgação
Sábado desses, conversando com a turma secular sobre a senhora que passou por nós com máscara de Zorro para se proteger da ameaça da vez, o vírus chinês, codinome 19, conhecido pela alcunha de coronavírus, como sempre a dúvida produziu minha arte final.
Havia conversado com Lauro Vasconcellos que, entre outras aventuras no reino da medicina, estudou na Universidade de Harvard, para onde foram seus colegas Kennedy, Obama e semelhantes. Estão pensando o que do povo que nasce em Alegre?
Conversa vai, conversa vem, fiquei pasmo. Enquanto a mídia se debruça em artes para atalhar um perigo epidêmico – o que é importantíssimo, claro – constato que a maior epidemia do século já chegou ao Espírito Santo: as doenças renais crônicas.
Respeitável público, no momento em que dedilho essas linhas, nada menos que 2,9 mil pacientes buscam tratamento – alguns internados – de nefropatia grave, que leva frequentemente à morte. A hemodiálise em pessoas com insuficiência do funcionamento renal é a derradeira forma de se manterem vivos, graças em parte a uma turma de abnegados da medicina.
As doações não chegam nem de longe às necessidades do transplante renal, a esperança final dos doentes. (Coisa semelhante ocorre com o coração, por exemplo). O número de transplantes renais, que há anos atinge em torno de 100 por ano, está longe de cobrir a necessidade, provocando uma imensa e cada vez maior dolorosa fila de espera.
E a consequência para os que não conseguem é a morte, que seria evitável. Laurão alerta que os programas de prevenção de doenças renais, nas fases iniciais, na atenção primária, isto é, antes que se inicie o processo patológico, são essenciais. “Além do diagnóstico precoce e o tratamento imediato para as complicações, retardando, assim, a evolução para a fase terminal”.
Fiquei sabendo – confesso que não sabia disso - que existem 21 centros de salvação, isto é, hemodiálise no Estado, mas faltam muitas vagas, apesar de abnegados com energia total trabalharem por três, e até quatro turnos, com procedimentos noturnos de quatro horas, três vezes por semana.
Não é motivo nenhum de orgulho saber que em todo o mundo 850 milhões de pessoas são acometidas de insuficiência renal grave, levando a óbito 2,5 milhões de seres humanos. Fora as outras doenças.
Minha senhora: a sintomatologia é silenciosa, por isso, o cuidado de ser dobrado.
Respeitável público, o Brasil está repleto dessas “epidemias” que incluem necessidade de comer lixo, morar na rua, dormir na chuva, enquanto o país é saqueado por quem deveria protegê-lo. A solidariedade passa longe.
Dorian Gray, meu cão egoísta, olha desconfiado.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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