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Tragédias na história

No meio da pandemia, o império da estupidez ataca

Grupos reúnem-se por todo o país para cantarolar palavras de ordem de apoio a coisa nenhuma. Não faz sentido apoio, quando não há nada para apoiar. Vamos ler um pouco de história de tragédias

Públicado em 

21 abr 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Dia Internacional da Mulher tem origem nas lutas sociais das mulheres durante os séculos
Manifestação Crédito: Pixabay
Confesso que foi a primeira vez que testemunhei um protesto a favor.
Tendo sido o objeto da manifestação do insólito presidente da República - que assim como a personagem Pacheco, de Eça de Queiroz, sem fazer absolutamente nada, como insinuavam espíritos pragmáticos e “estreitamente positivos” - igualmente ficou sem dizer nada, mesmo tendo falado muito.
Em plena poliesculhambose infiltrativa difusa, repleta de indefinições e impotência gerencial, grupos reúnem-se por todo o país para cantarolar palavras de ordem de apoio a coisa nenhuma. Não faz sentido apoio, quando não há nada para apoiar. Vamos ler um pouco de história de tragédias.
Mudando de conversa, custa nada um pouco de pitadas humorísticas nas tragédias da História.
Woody Allen denuncia em um de seus filmes que a Revolução Russa, que se arrastou durante dezenas de anos, só explodiu quando os bolcheviques concluíram em um gigantesco comício na praça principal de São Petersburgo, depois de anos e anos de conversa fiada, que Tzar e Czar eram a mesma pessoa.
Para mim, a dica foi particularmente útil quando disputava com a veneranda tia Cecy um concurso de velocidade em palavras cruzadas: outro difícil enigma, cuja resolução era imprescindível para a sobrevivência das palavras cruzadas, que seria a chave secreta do jogo, foi desvendado quando se soube que a pátria de Abrahão é Ur e pedra de moinho é Mó.
Voltando, Paulo, voltando.
Então, em pleno fim dos tempos, quando não se sabe o que acontece na terra dos vírus, isto é, aqui mesmo, todos os espaços – preste atenção – são ocupados por eles, fora o que imaginamos. Precisamos desmoralizá-los.
Em cada 100 ocorrências, 1% morre de não se sabe o quê, e 99% morrem de medo, a começar por mim. Creio que o governo faz o que sabe e pode, e o que pode não é mesmo suficiente. Assim como atender à maioria dos que são abordados por esse vírus, ou seja, o que for, que nem precisa de mosquito para o ataque, vai entrando na gente direto.
Não é hora de fazer graça, mas confinar todos os humanos nunca aconteceu antes no mundo. Nero, o histérico imperador romano, quando ordenou o incêndio de Roma, evitou que a peste acabasse com os italianos.
Será essa uma pausa para recordar que não é de hoje que poluímos nosso ar com todo tipo de porcaria que dê lucro, do petróleo ao plástico? Amazonas e Pará estão sem um terço de sua vegetação imprescindível para o ecossistema de todos nós. Tudo isso por obra e graça de meliantes irracionais que retiram tudo que reluz (nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai).
A mais absoluta ausência de consciência na humanidade e de solidariedade nos governos obrigam, por exemplo, a população carioca a consumir água suja. Será que os mendigos e as pessoas amontoadas em favelas derrapantes estão usando álcool nas mãos e máscaras?
Os demagogos oficiais passaram décadas nas reuniões – na maior cara de pau – dos mais ricos do mundo fazendo acordos que já sabiam que não seriam cumpridos. A humanidade se dizimando de fome e em guerras sujas, morrendo aos milhares durante décadas, e nada. E os donos do mundo espalhando armamentos para explodir na porta das casas. Nem usa máscara de pano ou álcool, ou qualquer coisa, esse povo perverso e bem armado de dinheiro e bombas.
Dorian Gray, meu vira-latas politizado, finge cochilar.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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