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Crônica

E se não tivesse o amor, melhor era tudo se acabar

Assim é o amor, e não gostaria que fosse diferente, e não seria diferente mesmo que eu não quisesse. Os filhos, netos e bisnetos são a melhor representação da alteridade, do outro, com o que um nascente fabrica a sua vida

Públicado em 

24 mar 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Amor Crédito: Divulgação
Tenho dois amores ao mesmo tempo e sem a mínima culpa. Não é fácil estar nesse pedaço de felicidade impunemente. Minhas senhoras, não é assim tão difícil reconhecer o amor verdadeiro, mesmo que tenha passado a vida inteira sem conhecê-lo.
O amor que nos invade e sacia a alma é da ordem do mistério e das súbitas aspirações aqui e ali, vida afora, vida adentro. É imenso demais para ser único, e frágil demais para sustentar-se pela lógica comportada e outras coisas da ordem da razão.
Minha senhora, o amor é loucura, ou então não é amor. É espontâneo, ocasional. Mas esta contestação não seria a negação da lógica, do determinado. O amor é inconcebível. Assim como o ódio e a competição. Basta olhar para a paixão nos dois sentidos de Sancho Pancho e seus moinhos, em Don Quixote de La Mancha, de Cervantes.
Tenho duas filhas e dois netos. Um cara como eu não merece tamanha dádiva. Nunca fui uma perfeição de marido, essas coisas. Amei até explodir, mas não fui. Graças ao bom Deus. Talvez não tenha sido o que se espera de um gerador de vidas e amores. Muitas vezes amei, senti que me amariam, mas talvez não o suficiente. Andei seguindo a rota da natureza. Como diz o outro, ao sol quando havia sol e à chuva quando chovia. Nunca ao contrário.
Amo. Falo da capacidade que tenho de lançar chamas de afeto aos objetos de desejo, não abro mão, escolho cuidadosamente. As consequências vêm em forma de pessoinhas que nos olham e dizem tudo. A inveja de tal felicidade é tanta que dá ganas de beijar, apertando as bochechas dos pedacinhos de amor. Se mais não me deram – e deram – bastaria isso para me fazer feliz na vida, feliz da vida.
Respeitável público, quero apresentar a bailarina e trapezista Alice, carregando seu filho e meu neto, Gael. No outro picadeiro ao lado, a linda bailarina e mágica Paula, que tem meu nome escolhido pela mãe. A tiracolo, a doçura de Bento. No meio do circo maravilhoso, estou eu, o palhaço feliz.
E assim caminha a humanidade, pelo menos a minha humanidade.
Assim é o amor, e não gostaria que fosse diferente, e não seria diferente mesmo que eu não quisesse. Os filhos, netos e bisnetos são a melhor representação da alteridade, do outro, com o que um nascente fabrica a sua vida. Haverão os pequenos de distribuir a vida sob forma de amor e desejo.
Lembro agora dos meus avós, Fonseca e Bonates, que me foram todo o amor do mundo. Seus sorrisos e gestos me ensinaram a amar o quanto pude e soube. E parece ser isso toda a herança possível, desde que uma família de navegantes ingleses deu com as âncoras em Manaus.
Dorian Gray, cachorro dorminhoco, olha para mim e dá uma risadinha de lado.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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