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Médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio

A arte de poder e saber interpretar é realmente para poucos

Chego a pensar que os “bandidos” de rua, na qual estão aprisionados, constroem uma relação com objetos de sobrevivência. Por definição são miseráveis

Publicado em 18/02/2020 às 05h00
Atualizado em 18/02/2020 às 05h00
Cena do filme
Cena do filme "Coringa". Crédito: Divulgação

Nós, o povo, independentemente de raça, torcida de futebol, facção criminosa, debruçados literalmente na internet, seja jogando no celular e nos intervalos telefonando, desprezamos pateticamente a relação com o semelhante, e me ponho a pensar.

Autores como Julio de Mello, referência mundial em psicanálise, e demais ícones no estudo do desenvolvimento afetivo do homem, passaram a vida a provar a dinâmica da condição humana que exige de cara uma relação com a mãe, desde o útero passando pelo nascimento e morte. Isso dá para a pessoa a capacidade de interpretar.

Penso na insubstituível área do brincar, parte do desenvolvimento criativo e sadio. Diferentemente dos arranjos pré-pensados, que controlam a vontade das crianças, especialmente a pedagogia oficial do país. Às vezes, chego a pensar que os “bandidos” de rua, na qual estão aprisionados, constroem uma relação com objetos de sobrevivência. Por definição são miseráveis.

O brincar transforma o objeto de relação – no princípio era a mãe e seu verbo -em qualquer coisa que venha a criar, inventar. Qualquer objeto pode representar qualquer objeto. Muitas vezes, tal capacidade demora a sair da metade real e da metade simbólica, de modo que a pessoa necessita do objeto transicional, que vocês estão cansados de presenciar, um travesseiro, um boneco, um objeto que a pessoa não larga nunca, ou quase, Ele contém a realidade, digamos, de um travesseiro, e as representações inconscientes fundamentos para a estrutura do seu ego. Então.

Dia desses, assisti à entrega do Oscar e nele estrelando "JoJo Rabbit", uma imaginária concepção que vai se construindo e aperfeiçoando até destruir-se sobre as sombras do afeto, amor e ódio. Os objetos transicionais variam, mas na minha interpretação, um analista, por exemplo, é sim um desses objetos. É um ser humano que se tiver competência, vai se deixar inventar a ponto de ser um objeto de fala e mudanças eleitas pelo sujeito.

O filme concorria ao Oscar e ganhou uma estatueta (secretamente voto todo ano, para todas as categorias às quais acrescentei o grupo dos “Injustiçados e Eternos”). Assisti a uma irretocável exibição do que Freud chamou de imaginário. E tem mais do Inconsciente.

A brilhante sutileza do filme “Coringa” substitui as aparentemente grotescas tomadas. A referência ao Batman acontece em uma única cena. O Coringa faz o lúcido no papel de louco, coisa que acontece muitas vezes.

Pronto. Não se falou mais no herói original, que para não chamar atenção fantasia-se com uma máscara e tudo imitando um morcego. E lá vai ele nos quadrinhos perseguir o sofrido Coringa.

Esse Coringa do Oscar, genialmente esculpido pelo incomparável ator Joaquim Phoenix, é um moralista estético que só queria viver e salvar. A humanidade mostrou-se bandida na película. Em cada canto alguém arrancava uma fibra dessa alma repleta de amor com diferentes demonstrações.

Em “Era uma vez em Hollywood”, o papel secundário do roteiro é que era o papel principal, o de Brad Pitt. Os “gênios” da academia premiaram como está no roteiro: papel principal deve ser dado a quem estrela como papel principal, no caso o bom Leonardo DiCaprio. Brad Pitt brilhou.

Dorian Gray, meu cão infiel, continua de olho fixo vendo Maria Sanz sambar na Novo Império, da Vila Rubim.

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