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Médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio

Já que Hitler foi tão bonzinho, por que não relembrá-lo, não é mesmo?

Parece pairar no ar verde e amarelo um bizarro clima de força e equívoco, bem misturados através de frases óbvias e bizarras que se espalham pelo país

Publicado em 28/01/2020 às 04h00
Atualizado em 28/01/2020 às 15h04
Adolf Hitler. Crédito: Getty Images
Adolf Hitler. Crédito: Getty Images

Quando a antologia de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que nos anos de chumbo de 1964 publicou o grotesco do cotidiano daquela época, pensei que a fina ironia havia atingido o apogeu. Ledo engano, respeitável público da fiel torcida do Brasil.

Naquele tempo, a cada dia surgia a exaltação do ridículo no lugar de qualquer coisa racional, culta, lógica e legal. Isso ia desde uma determinação sem pé nem cabeça e completamente ilegal até dispor sobre todas as músicas compostas e cantadas ou tocadas no país, e pequeninas medidas que contivessem uma gota de inteligência.

Lembro de um prefeito biônico de uma pequena cidade que na falta de assunto ordenou a construção de uma ponte “de urgência necessitada”. Em priscas eras, só era permitido nas Câmaras e demais instâncias de políticos, o governo e a oposição de propriedade do governo, Arena e MDB.

Isso mesmo, minha senhora, oposição do governo, que ousou advertir que não seria possível construir ponte ali, porque a cidade que receberia a obra não tinha rio, ou qualquer coisa parecida para passar por cima. O proponente não titubeou: “Nós constrói um rio bem caudaloso feito o Amazonas”.

Quando poderosos cínicos, com armas atômicas até os dentes, reuniram-se em Davos, Suíça, para uma sempre ilusionista conferência, que nunca dá em nada, o representante nacional Paulo Guedes mostrou a sua culta performance, tecendo considerações sobre a relação da pobreza com o desmatamento do mundo.: “São os pobres que destroem a mata para comer, pois sentem fome”.

Penso cá o que teria acontecido ao pequenino cérebro do ministro Guedes para ele elaborar tão formosa tese. Ou seriam pensamentos neuronais do Planalto que são espalhados, irradiando no éter seus misteriosos agentes do pensamento reinante do incompreensível e bizarro regime governamental?

Outro dia, o da Cultura, por assim dizer, Ricardo Alvim, recitou aos quatro ventos um discurso que era a cara, cuspida e escarrada, do nazista Joseph Goebbels, ministro da propaganda dos exterminadores nazistas. Deu o recado e fez-se sumir. O governo o demitiu dando a entender que era contra as palavras do doce bárbaro.

Só não entende a intenção palaciana quem não quer. Assim foi que, parodiando o que o alemão havia afirmado nas propagandas gritadas nos palanques do inocente, Adolf Hitler disse: “a arte alemã da próxima década será heroica e – pasmem – imperativa”. Isso foi repetido literalmente pelo ministro Alvim a respeito de um mero concurso de projetos de arte.

Parece pairar no ar verde e amarelo um bizarro clima de força e equívoco, bem misturados através de frases óbvias e bizarras que se espalham pelo país.

Receita para principiantes fabricarem um discurso presidencial: depois de esvaziá-lo de cultura e ciência, encha-o de futebol. Sempre futebol, de todas as categorias e idades. Entreviste as crianças que pretendem superar Messi e Neymar. Realize campeonatos de tudo, alguns torneios e copas internacionais, promovendo a futilidade.

Combata e vigie cada vez menos a corrupção. A tentativa de afastar Moro, a única unanimidade nacional no combate ao crime, é um bom exemplo. Treine as instâncias decisivas para interpretar de maneira pessoal a realidade e a toda hora crie um clima para afastar os que arengam pela igualdade e transparência, a qual eu nunca presenciei.

Agora chega. Chamem Maria de Fátima para colocar Regina Duarte no lugar certo. Dorian Gray pega o osso com as patas e rói.

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