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Médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio

A culpa é das flores: umas enfeitam a vida, outras a morte

Antigamente, a poesia, a derradeira das metáforas, falava por todos de tal maneira que nos impunham uma dúvida só

Publicado em 04/02/2020 às 04h00
Atualizado em 04/02/2020 às 04h00
Flores. Crédito: Divulgação
Flores. Crédito: Divulgação

A primeira vez que questionei o progresso foi por causa de um relógio de pulso, presente do meu pai. Era um lindo mostrador. Para ver as horas, bastava apertar um botãozinho, acendia uma luzinha e pronto: luzidia no meu pulso e mostrava as horas.

Ora direis, um relógio de pulso que acendia no caminho do progresso. Ledo engano, minha senhora. Era bonito, tinha até pilhas, mas eu precisava usar ambas as mãos para conferir: uma para apertar o botão e acender as luzes dessa minha moderna ribalta, e a outra para guiar o guidom da bicicleta, por exemplo.

Que progresso é esse? Ainda bem que eu não era de reclamar e nunca disse nada a respeito. Já me dava por feliz com o meu velho relógio, um Omega sem pilhas, mas automático – também chamado de “bobo”, por trabalhar de graça.

Na turma de adolescentes, da qual fazia parte, gostava de discutir as vantagens do progresso, e olha que o homem não havia chegado à Lua (chegou mesmo?). Não é para abafar ninguém, mas existe, pelo menos nos Estados Unidos, uma teoria – a Teoria da Conspiração – que jura por Santo Agostinho que em 1969 o homem não sabia construir nem televisão que prestasse.

Faço parte, com grande orgulho, da Turma do Boulevard, que é capaz de discordar um do outro, ou outra, a respeito de quase tudo. Frequento a “Turma da Panela” de vez em quando, a qual apelidei, por conta própria, de “Salvadores do Mundo”. O traço comum é a meta: o futuro. Por essas e outras, os “bolevarianos” mudam frequentemente de local de encontro, olhando para o futuro. A “Panela” tem sede própria.

Outro dia entrou em pauta, banhada em vinho tinto moderado, a preocupação do grupo com a arenga dos chineses, americanos, russos, coreanos, iranianos, iraquianos, e a temida guerra atômica que poderia pintar. A cada momento um deles apresentava suas razões para mostrar sua potência.

Embora pelo andar da carruagem possa-se dizer que as criancinhas do mundo preferem guerrear com telefones celulares e sua unanimidade de jogos. Os foguetes atômicos, ou não, perderam a graça. A julgar pelo treinamento intensivo e o ardor com que se pratica no mundo, temo que os hackers sejam convocados a guerrear sem fazer muita poeira como em Hiroshima e Nagasaki.

Podem usar a capacidade cibernética para produzir estragos maiores sem fazer barulho. Imagine a senhora que não está longe, se é que já não ocorreu, o dia em que computadores possam inutilizar uma cidade, ou um rio, ou os raios que os partam, mexendo em brinquedinhos de alcance imprevisível.

Dorian Gray, meu vira-latas de plantão, está em estado permanente de paranoia. Tranquilizei-o: “só porque você é paranoico não quer dizer que eles não estejam mesmo operando na direção do fim do mundo”. Não ouso discordar de Dorian, e muito menos concordar. Não tenho convicção a respeito de nada, mas creio que muito tempo passou por mim e nem notei. Empurrou-me para a solidão que habito às vezes - às vezes - com imensa sensação de prazer.

Antigamente, a poesia, a derradeira das metáforas, falava por todos de tal maneira que nos impunham uma dúvida só. A pessoa do Fernando – calma, todo mundo tem o direito de fazer trocadilho e trocaletras infames –, em 1916, publicou que “um jardim que tinha flores, de que não sei me lembrar, flores de tantas cores, penso e fico a chorar (Filha os sonhos são dores...)”.

Os poetas, os poetas. Um deles que circulava nos porões de "O Diário", o maior jornal da Rua Sete de Setembro, Sir Américo Rosa, acordava os que dormiam, geralmente redatores cansados, com o perfume das flores, e o fim do mundo: “Até nas flores, a ironia da sorte, umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte”.

Dorian Gray está dormindo, ou fingindo.

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