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Médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio

Medo e terror em nome dos deuses, me livre e guarde!

Não é de hoje que o Império, as repúblicas e as ditaduras brasileiras enchem suas repartições de pessoas PHD em estupidez, mas essa aqui, Damares Alves, ganhou o Oscar de pior atriz

Publicado em 21/01/2020 às 04h00
Atualizado em 21/01/2020 às 04h00
Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Crédito: Marcelo Camargo | Agência Brasil
Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Crédito: Marcelo Camargo | Agência Brasil

“O Estado é laico, mas esta ministra aqui é terrivelmente – ela disse terrivelmente – cristã”. Foi assim que uma certa Damares Alves apresentou-se ao assumir, pasmem, o comando do então recém-criado Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Mostrava claramente a que veio. Apesar de laica, recebeu 74 evangélicos, logo de cara, para mostrar que não seria tendenciosa. É claro que não iria abarrotar a sua agenda. Tanto é que recusou-se a receber ex-militantes e familiares que denunciavam torturas praticadas pela ditadura de 1964, além de propostas que dispunham sobre as leis que impediriam as próximas covardias no gênero.

O que está no âmago do termo “terrivelmente”? Apesar de se dizer assustadora, faz parte da ultrarradical bancada evangélica do Congresso. A insólita parceria entre religião e Estado nunca deu certo.

Quem conhece a história da perversa “Inquisição”, facção poderosa e política da Igreja Católica, sabe que dentro de suma hipocrisia era mais poderosa que o Estado. Promovia assassinatos, prisões, crucificações e arrancava confissões que lhes convinham, por mais ridículas e falsas que fossem.

Meu Deus, o que não se faz em seu nome.

Partiam de Roma aqueles carros alegóricos em nome da pureza d´alma e dedicavam-se a usar seus poderes para mostrar quem mandava no faroeste do mundo. Havia até o quarto dos mortos para onde eram enviados e trancados aqueles que se recusavam a confessar o que não haviam feito, os quase falecidos e os que já iriam morrer.

Para quem por descuido ou fantasia ousasse sobreviver, a coisa piorava. Os chefes dos blocos carnavalescos deduziam que haviam feito acordo com o diabo, o Belzebu. Os miseráveis voltavam à cruz para confessar de novo. E morrer de novo, agora pelas graças de Deus.

As mulheres que ousavam ferver a roupa contaminada, escondidas no meio das florestas, viraram as “bruxas” que aparecem muito no carnaval, festa pagã, juntamente com os diabos.

Voltemos à terrível ministra laica.

Como acadêmica, a ministra deu show de ficção: apresentou-se como “Mestre em Educação” e em “Direito Constitucional e da Família”. A “Folha de S. Paulo” mostrou em seguida que ela não possui tais títulos, nem na Plataforma Lattes, do Ministério de Educação e Cultura, e em lugar nenhum. Criativa, inventou, ainda, um autorreconhecido mestrado bíblico e uma teoria própria sobre evolução humana.

Em um vídeo antigo, aparece declarando que a sua Igreja perdeu espaço “quando nós deixamos a Teoria da Evolução entrar nas escolas”. Minha Santa Edwiges, como teria sido feito isso? Lavagem cerebral, capilar ou greve de fome imposta aos incautos? Chega a dar saudade do ex-ministro Magri, lembram do gênio, não lembram?

Não é de hoje que o Império, as repúblicas e as ditaduras brasileiras enchem suas repartições de pessoas PHD em estupidez, mas essa aqui ganhou o Oscar de pior atriz.

Embora seu currículo não tenha validade em lugar nenhum no mundo acadêmico, apela para a quantidade de coisas sem relação com a área. Por exemplo, quer resolver o crônico problema da falta de vagas escolares propondo que a evasão escolar não seja considerada falta. Chama isso de educação domiciliar. Não é bacana?

Mesmo que as duas principais entidades pertinentes ao assunto, a Conferencia Nacional da Infância e do Adolescente e o Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura estivessem à disposição, não constam da listagem de representações recebidas. Parece que a onipotência paira por aí.

As organizações religiosas alcançam o poder pela via do medo, da submissão, da falsa moral e da culpa, com raras exceções. Como diria Amylton de Almeida, isso me dá um medo tremendo.

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