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Passado e presente

Uma pequena caligrafia da história do Brasil que persiste até hoje

O povo não sabe nem o que pedir. Sai em blocos “partidários” na rua, não para reivindicar direitos, como igualdade, fraternidade etc. Mas sim para bajular aqueles que por malandragem se aproveitam disso para alcançar uma boquinha

Publicado em 17 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

17 mar 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Descobrimento do Brasil Crédito: Divulgação
Não, não vai dar certo, teria dito o papagaio a bordo da nave capitânia, quando Pedro Álvares Cabral chegou matando, invadindo e escravizando o país. E chamou isso de descobrimento.
Daí em diante tudo foi feito à força. Roubaram, expulsaram as pessoas das casas no Rio, e quando não queriam mais ou achavam que não havia mais nada para levar, iam embora. Só fizeram merda.
Trouxeram à força, acorrentados e na base da porrada, habitantes da África e os escravizaram, chicotearam e os obrigaram a trabalhar mesmo sem conhecer o ofício. Eram comercializados já nos portos africanos. Os psicopatas de lá – isso tem por todo canto – capturavam homens, mulheres e crianças e vendiam para os atravessadores oceano adentro.
O cruzeiro transmarino era uma graça: adoeceu ou emagreceu, era jogado direto para servir de refeição aos tubarões e outros bichos do Oceano Atlântico. O combustível para substituir ou agregar força às caravelas era conhecido pela alcunha de chicotadas, para acelerar as remadas. Quando a mercadoria traficada falhava, não recebia comida e ganhava pouca água. Digamos que o cruzeiro não era lá essas coisas. Cá chegando, já vendidos, a coisa ficava um pouco pior.
Com exceção talvez de Pedro II, os tiranos invasores eram pessoas ridículas, tanto os homens, quanto as mulheres e demais sexos que se espraiavam nos palácios. As carruagens puxadas a negros eram um luxo nas ruas das populações fabricadas.
Os canalhas lusos haviam fugido de Napoleão, fizeram um acordo de distribuição de valores – terras, madeira e o que houvesse por aqui – com a Inglaterra. Eles muitas vezes se entendiam. Todos os “civilizados” tomavam as terras, e batizavam-nas. Uma graça.
Espanha e Portugal dividiram suas conquistas no Tratado de Tordesilhas, um pedaço para Portugal e depois da linha divisória ao oeste, pertencia a Espanha. A Inglaterra não ia ficar de fora – afinal graduava os mais sangrentos piratas da época – e entrou em acordo com a Espanha. No troca-troca, por exemplo, Manaus, no Amazonas, ficou tecnicamente possuída pelos ingleses e sua fome de riquezas, como borracha, madeira etc. Tanto é que a cidade banhada pelo Rio Negro fica do lado da Espanha. Duas horas de fuso horário. Entendem? E isolada.
No Rio de Janeiro ocorreu a imposição das desigualdades pela força. Isso perdura até hoje – a incomensurável desigualdade brasileira – graças a uma farsa apelidada de democracia. Na verdade, é apenas um nome.
O povo não sabe nem o que pedir. Sai em blocos “partidários” na rua, não para reivindicar direitos, como igualdade, fraternidade etc. Mas sim para bajular aqueles que por malandragem se aproveitam disso para alcançar uma boquinha.
E aí dá-se o absurdo incompatível com qualquer arremedo de democracia – o voto obrigatório. Tudo que é obrigatório não pode ser democrático.
Então, como sempre foi, no tal dia, o bravo povo brasileiro que não quiser ser punido, privado dos parcos direitos, é obrigado a votar em alguém. (Só para comparar: Nos Estados Unidos, o voto não é obrigatório, sabiam?)
O resultado é óbvio. Nenhum eleito está comprometido com a seriedade que o cargo exige, como estamos cansados de ver, com raras exceções, é claro. O muito que Pedro II realizou como estradas de ferro, portos, bibliotecas, universidades, jamais foi superado. (O gajo era brasileiro)
Quando entregou o governo para o primeiro general de uma série, instaurou-se a lambança. A força, de um jeito ou de outro, governou o Brasil. E ainda governa. O povo protesta nos sambas de enredo, e grita no carnaval.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, acha que exagero.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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