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Crônica

Das minhas lembranças, o dia em que singrei o coração de Vitória

No exato momento em que cascavilho minhas prendas literárias, tomo consciência do significado de ser amado por esta cidade

Públicado em 

28 abr 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Data: 01/05/2011 - ES - Vitória - Procissão Marítima, em homenagem à Nossa Senhora da Penha, realizada na Baía de Vitória, passando pelo morro do Penedo - Editoria: Cidades - Foto: Gildo Loyola - GZ
Procissão Marítima em homenagem à Nossa Senhora da Penha passando pelo morro do Penedo Crédito: Gildo Loyola/Arquivo A Gazeta
Em dia de confinamento de nossa alteridade, em que todo o outro é ameaçador e determinante, crio a rotina de reler – intelectual não lê, relê, bem como não vai à praia, bebe.
Abro a estante de relíquias, que nunca abro. Abri. Dei de cara com um dos livros que compartimos Marien Calixte, Alvarito Mendes, Antonio Carlos Neves, Francisco Aurélio, Luiz Carlos Almeida Lima, Ângela Christina Xavier, Marcos Igreja, Pedro Teixeira, Atilio Colnago, eu e Bernadete Lyra.
Deixei para citá-la no final para justificar minha emoção de cristão novo. No lançamento da coletânea do número cinco dos Escritos de Vitória - o tema de todos nós era “Porto” - trocávamos dedicatórias, essas coisas.
Ao reler a de Bernadete, justo agora em que todos precisamos de carinho, estava lá: “Para Paulo Bonates, com um abraço e admiração mesmo (assim grifado)". Isso veio do coração e da sinceridade. Fiquei olhando na minha solidão de quarentena confusa a certeza de um gesto forte e gentil datado de 1994.
A capa o livro era de um azul celeste e flagrava o Porto de Vitória, repleto de navios e aquelas barcaças que me levaram tanto a Paul por conta de um amor.
Neste exato momento em que cascavilho minhas prendas literárias, tomo consciência do significado de ser amado por esta cidade.
Dediquei assim o meu pedido de amor a Vitória através do texto “A Pedra e o Penedo”. Vamos lá. Eram dois os navios da Booth Line onde nossa família viajava de Manaus a Belém, S.S Hidelbrand e RMS Hillary. De lá iam a Liverpool, na Inglaterra, passando pela Ilha da Madeira, em Portugal.
Conhecíamos – meu irmão e eu – cada canto dos dois navios. Havia a ala dos ingleses e a dos portugueses. Meu pai, Aderson, trabalhava, assim como quase toda a família, em uma companhia britânica, a “Manaus Harbour”, que cuidava do porto de lá, e possuía um majestoso cais flutuante, para compensar a variação dos níveis das águas do Rio Negro, afluente do Amazonas, e Solimões. Tínhamos dez anos, acho, quando papai escolheu uma rota que aportaria em Vitória do Espírito Santo. Depois seguiríamos para o Rio, o destino da viagem. Um marinheiro contava histórias à noite no tombadilho. A criançada acreditava em tudo e punha fé.
"Vocês vão ver que mágica é Vitória. Tem um imenso morro de pedra, no meio da baía. Ele é mágico. Ninguém, por mais que se aproxime, consegue tocá-lo. Eu mesmo já me aproximei de bote e tentei lançar moedas para lá. As moedas voltavam para o nosso bolso". Tempo bom – penso – moedas voltando aos bolsos.
Logo que desatracamos de Salvador, esperávamos ansiosos por conhecer Vitória do Espírito Santo (além de mágica, bendita).
Chegamos de madrugada. Minha mãe, Mariucha, em deferência especial, saiu conosco da cabine e demos de frente com o Penedo. Meu irmão Sérgio, ainda sonolento, fez o inesquecível comentário:
"O Pão de Açúcar daqui é pertinho...".
O marinheiro estava lá neste momento. Avisto um rebocador insolente arrastando o navio cidade adentro. Vitória estava parcialmente iluminada.
"Não falei, aqui tudo é estranha magia, garotada. Você pode olhar de sua janela e avistar passando um trem, um navio e um avião, todo ao mesmo tempo."
Olha só, um trem, um navio, um avião, vistos da janela.
Atracamos lentamente no cais. O palácio do governo parecia mesmo um palácio do governo. Estávamos em frente – agora já sei – ao Hotel Estoril. Ficamos debruçados olhando Vitória, os portuários, a chegada até o amanhecer. Pudemos notar os primeiros ônibus que saíam. Alguns eram lotação. Lembram do lotação? Vim a saber que faziam a linha da Praia do Suá ao centro da cidade.
Do navio mesmo deu para notar alunos do Colégio Estadual em uniforme: calça cáqui e azul turquesa. Achei lindo o uniforme do colégio em cujas carteiras iria gramar naquela farda.
Saímos antes do almoço para dar uma volta na cidade, pois o navio partiria no mesmo dia. Fomos à Catedral , andamos por aí de táxi e foi só. Mamãe olhou nos olhos do papai, daquele jeito que fazia sempre:
"Nós ainda viremos morar nesta maravilha de cidade."
Não deu outra. Anos depois adentrávamos, por assim dizer, o porto mágico passando pelo Penedo. Meus pais ficaram aqui para sempre. Os portos são cheirosos na mais completa e delicada acepção do termo. É como se fosse um mercado persa de viajantes, azul e rosa. Nesse dia em que chegamos para ficar, havia cheiros de café, óleo queimado, mar e feijão.
O velho porto viera marcar a cidade.
Sempre que passo pela Avenida Beira-Mar lembro do marinheiro, procuro o trem, o avião e o navio. E sempre estão bem ali à frente da minha recordação. Talvez seja por isso que quando pego a barca dano a fotografar os navios e catraias. De frente, fundo e perfil. É verdade a história do Penedo, nunca consegui jogar uma moeda lá.
Meu cão desmemoriado, Dorian Gray, dormia enquanto eu escrevia.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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