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Vida

Criança ou idoso, todo mundo necessita de um outro

É unanimidade, entre os estudiosos, que o desenvolvimento de uma pessoa depende necessariamente da alteridade, do outro, geralmente a mãe

Publicado em 14 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

14 abr 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Mãe e filho Crédito: Divulgação
Por que será que pessoas são carimbadas como idosos, a partir de uma idade, mas não temos um único dado científico ou explicação acadêmica, que seja, para tal classificação? Sem querer contradizer – e muito menos contrariar – os engenhosos cérebros que determinam os que são marcados para morrer.
Peço passagem para discorrer sobre o outro lado da curva de uma vida, o nascer. Em todo este vasto mundo, é unanimidade, entre os estudiosos, que o desenvolvimento de uma pessoa depende necessariamente da alteridade, do outro, geralmente a mãe.
Quero esclarecer aqui que “mãe” é, na verdade, uma função e pode ser exercida por quem se colocar nesse lugar. Aliás, nem sempre a “mãe” é a mãe. Pode ser o pai, o avô, um desconhecido que seja aceito pelo bebê para deixar-se inventar e, com isso, romper a bolha impotente do “eu”, a partir do que inicia complexos mecanismos de identificação e, aos poucos, e com muito carinho e provisão, vai emprestando dados da sua própria identidade a quem surge para gozar e sofrer no mundo.
É assim que um bebê fala sempre a mesma língua da mãe (ao nascer já possui sistemas que o habilitam a falar qualquer idioma que a mãe fale com ele). Já imaginaram se um bebê japonês, ao iniciar a fala, o faça em inglês? Só se ela falar inglês com ele. Idem em relação aos outros objetos de relação.
A criança reconhece os objetos para ficar cada vez mais independente da mãe, mas para se incluir na vida adulta obedece a uma lei (Freud chamou de Superego). Assim é que nasce a fala como instrumento de comunicação. Depois os objetos vão sendo reconhecidos e, certamente, recebem uma matiz ou tintura própria do bebê nascente, ou ex-bebê, sei lá.
A relação com os outros, e a obediência da lei comum, depende da comunicação dos egos (eus) através da comunicação oral e outras “falas”. As pessoas que se desenvolvem sadias aceitam pertencer a um grupo cuja interação torna possível seu crescimento até a morte. Alguns autores atribuem a proibição do incesto à necessidade da fêmea de uma família reproduzir com o macho da outra (ver Complexo de Édipo). Para comer um bife, você precisa de uma família para plantar a grama, a outra para criar o gado, e assim vai.
Essa organização permite que o ser mais frágil do mundo – nós, suscetíveis a todas as doenças – submeta todas as outras espécies às suas necessidades, e sobreviva até mais cedo ou até mais tarde. Esse modelo de organização não ocorre com outros seres vivos, mesmo os mamíferos. As religiões prestam-se à tarefa de vigiar e punir os infratores, com o versículo “Honrar pai e mãe”, por exemplo.
Mas não era para falar de Bom Velhinho, Papai Noel...? Fico um pouco incomodado quando falo comigo mesmo. Preciso de alteridade. Mas vamos lá.
Os velhinhos – vamos chamar assim? - a partir de uma idade totalmente arbitrária passam a ocupar um lugar na família que não existe. Foi-se o tempo em que os avós eram portadores da sabedoria e da ordem. Ao contrário da boa mãe com o seu bebê, ninguém fala com ele.
Isso o empurra diretamente para o “eu primitivo”, sem compartilhar. O organismo, então, não consegue captar o desejo de viver ou ter a sua mais primitiva expressão de comunicação operante, o falar. Vai perdendo as coisas, o falar, os dentes, o intestino, a voz, o desejo sexual e outros desejos.
Na atual epidemia de conceitos disformes, ausência de prognósticos e toda a força do homem e a ciência do homem, sufocadas por uma insólita luta do poder, o bicho pega.
O Deus pagão, codinome dinheiro, apelido vil metal – pasmem – também perdeu a alteridade e com isso a autoridade. O que fazer com esse símbolo de poder e mobilidade do particípio passado?
Assim é, caríssimos irmãos, que ao contrário do fenômeno de seu nascimento, faltam agora aos bons velhinhos e seus trenós, os objetos – “mãe” - para garantir-lhes o funcionamento psicossomático.
Com vírus ou sem vírus, a maioria se ajeita como pode nos lugares familiares que lhes ofertam, como a um esmoler, ou em falsos abrigos que com toda força tentam ressuscitar o valor do dinheiro na hora de cobrar a conta, por uma estadia onde falta principalmente amor de mãe ou qualquer outro.
Dorian Gray, cachorro esperto, quer fazer xixi na calçada.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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