Dizem os antigos que é verdade. Era uma vez um distinto cavalheiro que em 1950 costumava passear, ali pelas bandas de Cariacica, com sua Rural Willys. Tudo ia muito bem quando um pneu furou bem em frente ao então Hospital Colônia Adauto Botelho, reservado aos julgados loucos. O bom senhor resolveu pedir ajuda no frenocômio (Ao dicionário, Rubinho Gomes, ao dicionário).
O hospital ficava bem no alto da colina e da estrada até lá havia uma ladeira com uma trilha repleta de buracos e curvas. Doidinha da Silva. Contava-se nas madrugadas de plantões que o homem estava com um problema: tinha um único pneu sobressalente, mas faltavam os parafusos para fixá-los à roda claudicante.
Antes de chegar a pé na portaria, encontrou um paciente com traje típica, isto é, camisas listradas, calças listradas e um doce olhar tipo Bolsonaro. O dito cujo estava dando seu passeio, como todos faziam nas manhãs de sol.
Já cansado de subir a ladeira, o senhor velhinho – tremendo grupo de risco – pediu ajuda ao internado. Talvez ele soubesse de alguém que pudesse lhe emprestar um estepe. Não conhecia. E, diante da hesitação do senhor, o interno deu uma ideia:
"Por que não tira um parafuso de cada uma das três rodas e, provisoriamente, usa no seu estepe?". E assim foi feito. Mas antes de dar partida na Rural, perguntou: "Mas o senhor não é maluco?". E teve a resposta: "Sou maluco, mas não sou burro".
Costuma-se, por covardia e ignorância, associar doença mental à violência ou burrice. Nada mais longínquo que isso.
Quando dirigi o hospital, a tal piada rolava. Eu liderava o grupo que promovia a Reforma Psiquiátrica, com o apoio da Velha Guarda, especialmente Cesar Mendonça, Alcides Silva, José Carlos Pereira do Vale, Gilvandro Pinto Moura e Silva, Alaor Queiroz de Araújo, Luiz Amorim e Euclides Bruto de modo que foi reduzido em dez anos, dentro do espírito da famosa reversão da tendência hospitalocêntrica, a população de internos.
Todos juntos, a jovem e a velha guarda, através de manobras inteligentes e éticas, modernizamos o hospital. Fundamos – no comecinho apenas com a enfermeira Maria, seu amor José Periquito e o locutor que vos fala – o Centro de Psiquiatria Comunitária. Naquela época, o mundo inteiro reformava o conceito de loucura.
Trabalhando no Inamps com Vitor Santos Neves, Zé Luiz Martins e Luiz Buaiz, conseguimos criar o primeiro serviço de Saúde Mental em Pronto-Socorro Geral no Brasil, o São Lucas. Não foi moleza sobreviver politicamente aos prognósticos da torcida adversária, as piores imagináveis.
“Vão quebrar tudo, incendiar”, era o argumento. Ou seja, uma projeção nos pacíficos pacientes da loucura que haviam reprimido em si mesmos, tenho certeza.
Lembro que insisti na ideia. Pois bem, por cerca de 15 anos o pronto-socorro operou com enfermarias psiquiátricas, aliada às clínicas, para, inclusive, diminuir o índice de internação. Ninguém chorou, ninguém quebrou, ninguém morreu. A verdade é que uma parcela da nossa laboriosa classe médica não queria sujar as mãos com certo tipo de paciente. Como acontece até hoje.
Existe uma loucura que não está nos pacientes. Esta se fez presente quando o São Lucas foi reformado e, na volta, não voltou. Não retornou o bem-sucedido atendimento psiquiátrico integrado ao clínico. Por quê? Chamem o moço dos parafusos.
Já faz tempo que ninguém pergunta nada ao louco, não pode ter opinião, assim como os idosos, os doentes crônicos, e demais “categorias” classificadas sem critério algum.
Então, deixa eu contar uma estória das histórias da psiquiatria no Espírito Santo.
Estávamos no final dos anos 1960, quando éramos estudantes de Medicina. Havíamos fundado a Associação Universitária de Psiquiatria do Espírito Santo, a Aupes. Já havia oficialmente a profissional Associação Psiquiátrica do Espírito Santo, composta pelos citados antigos profissionais, que, aliás, instauraram a especialidade no Estado, nos anos 1950, por aí.
Então. Sob a batuta do dedicado mestre Antônio Barcellos (e no hospital Cesar Mendonça) estagiávamos bem na esquina do Centro de Saúde de Vitória, em frente ao Bar Dominó. Local pequeno, porém decente: tinha auditório e tudo. Atendíamos pacientes e depois doutor Barcelos vinha corrigir e acrescentar saber. Um segundo esteio deste grupo, que acabaria assumindo a coordenação da gente, foi o psiquiatra e psicoterapeuta Liberato Tristão Schwartz. Devemos muito a ele.
Esta jovem equipe, que também estagiava no Adauto Botelho, era composta por Luiz Henrique Puppim, Guilherme Lara, Lucio Simões, Maria Elizete Ramaldes, Eliana Vicentini, Emilia Silva, Julio Prattes, Graça Ruy, Beth Madeira, Edwaine, Edson Pinho Carpes, eu e poucos outros. Estou contando apenas os médicos.
Passou-se. Um dia Zé Luiz me nomeou para coordenar uma equipe de psiquiatras recém-aprovados em concurso no INPS ou Inamps. Quase o mesmo pessoal do Centro de Saúde. Eu, sempre com mania de ser jornalista, editei um jornal tabloide de um único número, intitulado “Espelho”, que pelejava pela reforma. Lembro da capa com uma foto de Makoto, uma cena ilustrativa do pátio do Adauto.
Além disso, organizamos um Serviço de Triagem em um prédio alugado pelo Inamps, na Rua Sete, para as funções de atender curto tratamento ambulatorial e fazer triagem para internação.
Contamos também com a ajuda externa do gaúcho Ellis Busnello e a referência da argentina Maria Luiza Ocampo. Eu trouxe os dois primeiros psicólogos a atuar na rede hospitalar de saúde mental: Pedro Brandão e Ítalo Campos. E uma deusa, dona dos meus encantos profissionais, Vanessa Torres.
Deixa pra lá. Parte da minha animação para escrever estas mal traçadas é provocar antíteses, se houver, e dar luz à razão. Desculpe, mas preciso escrever. Já não há mais tempo a perder.
Dorian Gray, meu cão vira-latas, está com medo de se vacinar.