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Futebol

Todos os times, com poucas exceções, são comparados com o Flamengo

Dá gosto sim, ver um time e paixão unificados por todo o Brasil, com suas canções, seus gritos, suas rimas ricas

Públicado em 

03 dez 2019 às 04:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

O Flamengo conquistou a Libertadores sobre o River Plate e se classificou ao Mundial de Clubes Crédito: Fernando Vergara/AP
Quando a comunicação por mídia foi descoberta, isto é, povoou as agências de todo o país, pairou o seguinte bordão: “Uma imagem vale mais que mil palavras”. Até que Millôr Fernandes, desde a barricada construída pelo hebdomadário “O Pasquim”, para não perder o costume, desafiou: “Digam isso com imagem”.
O semanário constituiu-se como uma resistência à estupidez violenta da ditadura instalada em 1964, primeiro de abril. O humor é a prenda que só os humanos possuem, e como é construído sabiamente por metáforas, os censores – existia essa estranha profissão naqueles tempos de loucura e violência – ficavam sem assunto. Em seus pequeninos cérebros não cabia nada mais que o óbvio explícito, se tanto.
Agorinha mesmo, no dia da chegada do Flamengo ao Rio, após a mágica Vitória sobre o River Plate, da Argentina, na partida decisiva, quando fez dois gols a exatos quatro minutos do final da partida que decidiu o título da Copa América, deu-se o vexame.
Na ocasião de um desses rega-bofes, o governador carioca, Wilson Witzel, quis tirar sua casquinha, e munido de ridículo exagero, ajoelhou-se aos pés do Gabigol, jogador do Flamengo, o autor dos citados dois tentos. Mal a autoridade abaixou-se, após os cumprimentos, para beijar literalmente a mão do jogador, artilheiro da partida, este aplicou um drible passa-fora espetacular. Retirou a mão e foi embora. Foi a melhor jogada de Gabigol, que idiota não é, inclusive fora das quatro linhas. Vai fazer média com aquela que te pôs no mundo, senhor governador!
Vocês viram o que é uma mobilização popular de verdade, sem manipulação, sem torcida, sem partida, sem sindicato, sem igreja. Todos bradando por um país, unidos pela mesma causa, o outro, o próximo. Senhores, eu vi: havia até pessoas com a camiseta e bandeirinhas do América do Rio.
E vale a pena anotar. Os jogadores da nossa irmã adotiva, a Argentina, não deram um único pontapé covarde em ninguém. Deve ser o cambio.
Como não poderia faltar, só para não perder o costume, os cartolas multinacionais garantiram os investimentos, mexendo aqui e tabelando ali, e conseguiram uma segunda glória: ser campeão de outra coisa qualquer, na minha modesta opinião, para o caso de não surgir a vitória. A coisa acabou com um duplo campeonato. Sacaram?
E lá vem o triplo. Flagrei Dona Etelvina, minha operadora de lar, arrumando uma estranha mochila baiana e ameaçando viajar de cargueiro para ver nossa performance frente ao Liverpool. “O Brasil não vai perder para um time com nome de sabão em pó. Não com meu consentimento.” Sei lá.
Dá gosto sim, ver um time e paixão unificados por todo o Brasil, com suas canções, seus gritos, suas rimas ricas. Todos os outros, com raríssimas exceções, não chegam a ser comparados com o rubro-negro. Quando o Rio era capital do país, seus times tinham torcida organizada em todos os Estados, territórios, mas nenhuma se comparava com a do Flamengo.
Isso levou a todos os rincões, a formação de equipes regionais do interior do país inteiro a fundar seus próprios “flamengos”. Então, era sim a seleção nacional rubro-negra que ganhou a taça “Libertadores”. Com técnico, treinando sem a preocupação de se vender cara para garantir a gororoba.
Os selecionados engordados e espalhados mundo afora mal se encontram às vésperas da Copa do Mundo. Ninguém conhece o jogo de ninguém (exceto naturalmente o pai do Neymar, que se encantou ao ver rolar a cachoeira de grana produzida pelo rebento bem-adestrado). Desculpe, Neymar, você não tem culpa e és um gênio da bola. (E um Bozo no amor).
Quando os craques aparecerem por aqui, vamos gastar os derradeiros tostões para sentar na arquibancada, com o sol na cara, e morrer de amor por nossos milionários da bola, como diz Tia Cecy, aos 87 anos.
Afinal, somos a peça fundamental da maquininha.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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