Eu tenho uma ligação secreta e familiar com Luís Fernando Veríssimo. Na verdade, eu tenho inveja, até porque é imbatível no clarinete. Além do mais, é filho de Érico Veríssimo. Passei minha adolescência adorando “Olhai os lírios do campo”, que serviu de inspiração para a nossa geração da Juventude Estudantil Católica para embasar um sentimento de amor ao próximo e que levava à atitude contra o mal, na época travestida de ditadura de 1964.
Na sequência que lhes prometi sobre o que viria a ser uma conversa de irretocáveis pensadores e escritores, no escrito da semana passada, peço licença para compartilhar com vocês o que Érico pensava de Eça literariamente:
“Os romances dele estão vivos pela mesma razão pela qual os livros de Dickens ainda hoje estão vivos. Porque são vida. Porque as figuras de Eça não só expiram como também transpiram. Porque têm três dimensões e movem-se em um mundo tridimensional. Acontece que a prosa desse grande mestre é polpuda, sanguínea, gostosa.
O estilo de Eça de Queiroz é contagioso. Houve um momento em que ele influiu poderosamente na minha prosa. Isso, entretanto, se passou numa época em que eu não costumava publicar o que escrevia. Mais tarde, passei a ler no original literatura francesa, e principalmente inglesa, de sorte que o fantasma do criador do personagem João da Ega deixou de assombrar minhas páginas.
Parece-me um erro que escritores como Anatole France, Machado de Assis e Eça de Queiroz sejam negativistas e dissolventes. Reajam, vós negativistas e dissolventes. Realismo não é sinônimo de pessimismo. O escritor deve ter um olho cor de rosa e um olho negro. Foi o que aconteceu com o autor de “Os Maias”. No fundo de suas sátiras em torno do “Portugalório”, o que havia era ternura e um pouco de piedade. Confesso que a leitura dos romances de Eça nunca deixou em mim um vestígio ou ressaibo amargo. Pelo contrário, elas sempre me deram e ainda hoje me dão um tremendo apetite com relação à literatura e à vida...".
Respeitável público, mergulhado nessa sequência para qual espero cumplicidade de meus parcos leitores, deliciem-se como eu.
Mas o que será, nessa roda viva de mestres a qual me inclui de enxerido, que Mário Quintana pensava sobre Eça, o tema central desse palavreado, que encontrei por um doce acaso? Resolve falar sobre a atualidade e vitalidade de Eça.
“Se o que indica a vitalidade e atualidade de uma obra é o seu atual índice de leitores, tem-se de chegar à conclusão de que Eça de Queiroz não existe para a presente geração literária. Aliás, basta ver como se escreve por aí: tudo no estilo "vai rachando". Isso, afinal de contas, é relaxamento e desconsideração para com o público. É o mesmo que sair à rua com a camisa para fora das calças (não é fantástico?, digo eu). Uma cafajestada. Onde está o exemplo de Eça de Queiroz? O cuidado do estilo? O amadurecimento da observação? Pois que os romances dos escritores da última geração não passam de meras reportagens, porque mal escritas.
Quanto à influência de Eça na minha formação literária – diz o gaúcho – essa existiu inegável, como aconteceu, aliás, a toda minha geração e à anterior. Mas quero crer que a sua influência fazia parte da influência francesa que então nos dominava, pois era ele um autêntico gaulês pela clareza e leveza do estilo e pela sua deliciosa ironia".
Caríssimos irmãos, como diz Quintana: “Agora, se escritores do caráter literário de Eça são espíritos construtivos, ou não, a resposta é positiva. Não quero fazer frases, mas não resisto à tentação de dizer que nem tudo está perdido enquanto não se perder a capacidade de odiar: ódio à hipocrisia, às falsas virtudes, à pasmaceira moral, ao cinismo político, à avareza do coração. Odiar tudo isso, combater tudo isso, é sem dúvida construir o contrário do que combatemos. E quando, como em nosso querido Eça, esse combate se faz por meio do riso – o riso de Molière, de Antônio José, de Pagnol, de Shaw, de Charles Claplin – nada é mais eficiente: não há papão que resista a uma gargalhada”.
Não quero cansá-los mais ainda com as minhas paixões literárias, que espero serem vossas.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, dá um pequeno uivo com fome.