“Ao Paulo, a quem devo parte da minha sobrevida”, escreveu na dedicatória de “Província São Pedro”, uma revista trimestral que circulava na capital gaúcha, edição de 1945. Eu nem era nascido. Ele botou aspas (eu tirei).
Era inverno de 1997 e o gaúcho andava triste. São incontáveis os serviços e a arte que derramou pelo país. De Porto Alegre, um dia, me contou uma tragédia que viria feri-lo para o resto da vida: o pai, seu melhor amigo, foi atropelado enquanto conversava com ele. Além de Porto Alegre, saiu rumo ao Norte produzindo coisas da televisão, da TV Gaúcha, passando por São Paulo e vindo parar em A Gazeta, onde junto com Plínio Marchini, e demais competências, estruturou o complexo. Alto, louro forte, e de uma cultura de dar inveja. Assim era Rudi Grage.
Foi meu paciente e por já estar no céu - ou inferno, nunca se sabe -, posso eticamente revelar. Acho que a dedicatória é meio por aí. Separou-se – tinha um casal de filhos – e foi morar em uma casa pequena e aconchegante no Bairro de Lourdes. Toda santa terça-feira, a partir das oito da noite, reunia-se o grupo mais faceiro da cidade. Uns falavam, outros tocavam, e todos bebiam. O nome fantasia era Casa da Mãe Joana, em alusão a uma impublicável expressão.
Em matéria de bebericar cachaça da boa com elegância, o governador de então, Albuíno Azeredo, esbanjava categoria. Cantava bem a autoridade, só boleros. Xerxes Gusmão, Álvaro Nazareth, Wellington Citty e João Boa Praça. As damas de honra eram, insubstituivelmente, a senhora Waldiceia, primeira-dama, Terezinha Calixte e Sheila Silva.
Horrorizamos a vizinhança do comportado bairro, que fica ali como quem vai para Jucutuquara, mas não vai, sobre umas pedras. Um encanto. Grage, que eu apelidei carinhosamente de Obelix, possuía uma coleção de livros de dar inveja, a mim principalmente. Um dia, falávamos de Eça de Queiroz, para mim o mais refinado escritor de todos os tempos, apesar de português.
Ele sempre me prometia dar um livro onde em determinado capítulo estrelas da literatura respondiam a perguntas e comentavam sobre Eça: Erico Veríssimo, Athos Damaceno, Mario Quintana e outros que pareciam muito com a nossa turma da Casa da Mãe Joana, pelo menos na intenção. Bebericar um pouco e trocar impressões.
Uma tarde, lá vem Grage com o tal livro, já quase aos pedaços, mas inteiro para devorar. Considere-se que fora editado pela primeira vez em 1945, e estávamos no começo de 1990, quando as reuniões começaram. Escrevo essas lembranças em abril de 2020, quando a inteligência foi posta em quarentena, transformando o país em um campo de concentração de incompetência.
Rudi leu para mim as primeiras páginas, tinha essa mania. Ajeitou o corpanzil na cadeira de balança com muito cuidado, arrumou o suspensório, que foi sempre sua marca de roupa, e passamos à tertúlia sobre Eça, intitulada “Três perguntas Sobre Eça de Queiroz”.
Não há espaço no mundo onde caiba tanta inteligência, de modo que escolho duas delas para reproduzir. Pretendo, eu e minha quarentena, apresentá-las no próximo escrito.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, guarda na memória o único heterônimo de José Maria Eça de Queiroz, isto é, Fradique Mendes.