Acordo, e não tenho mais certezas. Desde que me foi imposto, a mim e ao meu mundo, um sistema incompreensível e irracional para as vítimas da pandemia, que me encolho com medo do desconhecido. Acho aqueles que proclamam entender do assunto não têm controle e nem as suficientes explicações baseadas em algo que faça sentido. Mas, vamos lá, eu também não tenho.
Conhecem a piada do pintor de parede, que do alto de uma escada imensa, fazia calmamente seu serviço? De repente, recebe uma ordem superior: “Se segura no pincel que nós vamos tirar a escada”. Estamos todos nos segurando nos pincéis.
Levanto e vou às tarefas. Mas que tarefas? Em regime de reclusão, como o que estamos, ou se faz algum movimento com a mente ou se enlouquece, pode-se escolher. Resolvo executar uma tarefa até então longe da minha disposição e energia: organizar os livros cuidadosamente entulhados nas prateleiras que se dispõem pela casa toda. Começo a sentir o prazer do oculto no castigo: reler e lembrar as pérolas da literatura, ciência, bobagens maravilhosas, algumas delas só a reclusão e a remessa imediata para o pensar e o criar oferecem prazer.
Em Auschwitz, eles não tinham isso.
Nessa madrugada, ao olhar o relógio de parede da sala, encontrei logo de cara o livro de crônicas do José de Figueiredo Costa. A obra foi organizada por sua mulher, Clea. A venda era proibida. Senti-me feliz. Convivi e conversei com ele o suficiente para ter meu nome entre amigos. Relacionei-me com ele em um tempo em que praticamente fazia parte da sua família. Muito me orgulhava, e ainda me orgulho disso.
Não tinha ainda lido o livro, repleto de crônicas, que me tinha sido enviado há muitos anos, logo depois de sua morte. Uma inibição traiçoeira da ordem dos afetos queria deixar as coisas queridas quietinhas. Eram textos maravilhosos em simplicidade e de extrema categoria, por assim dizer. Eu que o tinha como modelo de pessoa e comunicação, li tudo que expunha sobre sua alma secreta, de um humor único e disfarçado. Reli, coisa rara em mim.
Convivi muitos anos com ele, o suficiente para curti-lo e aos seus parentes, como dizia. Ali, haveria de encontrar-me com meu primeiro e maior amor. Meus amados leitores, em uma relação de afeto, quem fica sofre, mas tem a companhia da razão, da mágoa, da solidariedade e de muitos novos amores. Quem parte, tem os olhos rasos d’água encharcados de culpa, que é filha perversa da onipotência.
Estou lendo pela segunda vez seguida os textos de Zé Costa, que encadernam-se detrás de uma capa sisuda, com uma única foto, seríssima, com cara de mal, tipo 3 X 4. Deixei em uma mesinha estratégica na sala. Passo e olho rápido, acho que está sério, acho que está rindo, de papo pro ar, como diz Chico Buarque.
Invejo sua beleza e sobriedade e seu discurso simples, que de simples não tem nada. Fiquei sabendo, ontem, ao ler salteado, a revelação de que seu apelido, Zé Costa, vinha de Zé do Costa. Que Costa? O doutor Costa, a própria perfeição de ser humano, médico que benzia as pessoas, até na sua casa em frente ao Colégio Estadual.
Sinto falta imensa entre os mortais, deste Jesus, filho de Eugenita.
Meu cachorro Dorian Gray deixou cair sua derradeira lágrima.