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Em família

Estes são os ingredientes de uma pessoa inteira e imortal

Estava lembrando outro dia. Parece que quando se dá na mente espaço e tempo, o passado, o presente e o futuro são uma coisa só. Agora mesmo, vejo e sinto o cheiro das imensas mangueiras da rua da vovó, em Belém

Públicado em 

26 mai 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Pé de mangua
"Lembro que batia um ventinho na infalível chuva da tarde e chovia mangas. Cada manga!", diz o articulista Crédito: Divulgação
Francisca Marileine Normando da Fonseca, ou “Chico”, era como brincava tio Paulo diante das travessuras da irmã sapeca, a mais jovem de todos tios. (Tio Rância, por exemplo, é mais novo do que eu e meu irmão Sérgio, demonstração e orgulho da performance do meu avô Francisco Fernandes da Fonseca).
Estava lembrando outro dia. Parece que quando se dá na mente espaço e tempo, o passado, o presente e o futuro são uma coisa só. Agora mesmo, vejo e sinto o cheiro das imensas mangueiras da rua da vovó, em Belém, bem em frente à Vila Hortência, número 8.
Batia um ventinho na infalível chuva da tarde e chovia mangas. Cada manga! Saíamos de bicicleta, sob o comando de Marileine, descendo a ladeira do Colégio Moderno, chuva na cara, manga na cabeça. A gente vinha de Manaus ou do Rio passar as férias na capital do Pará, com seu tucupi no tacacá. Belém é um lugar cheiroso a ervas e árvores. O mercado Ver-o-Peso é um monumento operante das construções antigas.
Marileine liderava os passeios da garotada, que depois de explorar a cidade, programava passeios à Praia de Mosqueiro e a Salinas, na Ilha de Marajó. Minha mãe Mariucha, tia Joana, vovó Waldebrandina, tia Joanita eram feras na costura. Eu ficava ali prestando atenção.
O desejo materno mandava e manda. Olhava aquelas tesouras, agulhas, os bordados nos “bastidores” que prendiam o tecido, com fascinação. Transformar pano em vestidos e camisas, transformar água em vinho. Eu ficava horas e horas vendo Marileine praticar aquela transformação, cheia de mágica.
Não era permitido um menino macho se interessar por costura, mas sentia um prazer até no barulho da Singer lá de casa. Com o tempo ninguém trocava um carretel de linha fina na bobina como eu. Às vezes, me atrevia a cortar uma peça que geralmente vinha das Casas Pernambucanas, onde você pode estar seguro das compras que você faz, como tocava no rádio bem no meio do “Direito de Nascer”.
Passava rápido as férias em Belém. Tia Joanita e Marileine punham-se a mudar a férrea intenção de mamãe para me colocar na faculdade de Medicina desde os dez anos de idade. Marileine e Joanita defendiam outra longínqua ideia: “Mariucha, o Paulo vai ser alfaiate. Tem jeito”. Dona Mariucha ouvia e lançava aquele fulminante olhar que dizia tudo.
Já estava quase toda família em definitivo no Rio, quando Marileine virou moça feita, dedicada à dança e à música. Logo veio se apaixonar por Landinho. Tremendo pé de valsa, um morenaço de olhos verdes que encantou nossa Mary. E a nós todos. Por fidelidade a ele, eu, que já me havia iniciado como flamenguista, mudei para o América do Rio. Nos anos 60, o alvirrubro tinha um time de futebol de verdade, o que incluía metade da família do Zico, o mais novo.
Passou-se. Como dizia uma cliente com mais de 80 quando queria mudar de assunto.
A apresentação dos atestados de vacina contra tudo era obrigatório para quem viajava de navio ou avião. Doía de fazer gosto. Não foram poucas as vezes que Marileine convencia o tio mais novo, Rância, a se vacinar em nosso lugar por módicos trocados. Meu Deus, me perdoe. Um dia chegou a passar mal. Afinal, era o mais novo e mais fraco, não fez mais que a obrigação.
Landinho roubou Marileine de nós. Iam dançar no clube do lado de lá do Meyer e a gente perdeu a liderança dela. Propusemos uma trégua. Iríamos a Petrópolis ou de barco a Paquetá, todo sábado. Em troca, vestiria de vez a camiseta do América e aprenderia a cantar o hino do clube feito a fina estampa por Lamartine Babo, que aliás era torcedor do “Mequinha” e compôs de lambuja os hinos de todos os outros times da Primeira Divisão carioca.
Landinho nos deliciou e subitamente voou para o céu, já faz tempo.
Na opinião de minha filha Paula sobre a tia Marileine: “Eu sei que o Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa, mas para mim o melhor lugar é a casa de tia Marileine. Tinha cheiro de feijão (o melhor feijão do mundo), de farofa, de ovo e de amor. Sempre muito carinhosa com todo mundo. Adorava seus artesanatos e tinha um colo tão quentinho... Há cerca de um mês, me ensinou a fazer seu famoso feijão por FaceTime. Eu disse a meu filho Bento que o levaria ao Cachambi para que conhecesse aquelas maravilhas de arte e fogão. Não deu tempo. Minha madrinha, irmã da avó Conceição, ou Mariucha, se foi hoje... Olho uma foto do grupo. Eu no colo dela. Marileine, meu conforto é que você não sofreu, que pude ter um último tempinho com você (mesmo que virtual). Vai com Deus, tia Mari. Dê um beijo enorme no tio Landinho, no vovô Aderson, e na vovó Mariucha por mim. Diga que sinto muita saudade. Foi lindo ter você. Obrigada”.
Dorian Gray, meu cachorro vira-lata, uiva de dor.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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