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Ana Laura Nahas

Enquanto escrevo, sou amiga ou faço pilates com Joan Didion

Sonho acordada: talvez falássemos da mania dela de guardar manuscritos no congelador, do seu amor pelo caubói John Wayne, do quanto a vida muda num instante, de repente, do nada

Publicado em 17 de Maio de 2026 às 04:00

Públicado em 

17 mai 2026 às 04:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Eu adoraria ter sido amiga, colega de trabalho, vizinha ou companheira de pilates de Joan Didion. A despeito da diferença de idade e das quase 5 mil milhas que separam a cidade que habito da que ela habitava, falaríamos do trânsito, do tempo, das perdas recentes e dos bons lugares pra beber Coca-Cola no café da manhã - com gelo pra mim, com amêndoas pra ela.


Sonho acordada enquanto escrevo: os encontros com Joan Didion seriam o máximo. Talvez falássemos da mania dela de guardar manuscritos no congelador, do seu amor pelo caubói John Wayne, do medo de perder o controle, de um amor arrancado do cotidiano, do quanto a vida muda num instante, de repente, do nada.


Quem sabe falássemos do episódio de 1966, quando ela entrevistou pessoas que viviam em Honolulu nas primeiras horas do domingo 7 de dezembro de 1941, dia do ataque japonês à base naval norte-americana de Pearl Harbor. 

Joan Didion em 1968
Joan Didion em 1968 Julian Wasser/Divulgação/HarperCollins Brasil

Todas, sem exceção, começaram o relato relembrando como aquela havia sido uma manhã normal, calma, sem nenhuma indicação de que mudaria os rumos da maior guerra da História da humanidade.


Certamente falaríamos do extraordinário escondido nos dias comuns e do horror das guerras grandes, pequenas, particulares ou coletivas, da insensatez embutida nelas.


Possivelmente falássemos de como nos fixamos no mais banal das circunstâncias que precedem uma tragédia: o céu azul e claro do qual caiu o avião, a tarefa rotineira que terminou com o acidente de carro, os balanços nos quais as crianças brincavam rotineiramente quando o cobra atacou, de trás do arbusto. 

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Acho Joan Didion elegantíssima, além de tudo. Elegante na escrita, na prosa crua, honesta e ritmada, na escolha das palavras. Elegante na maneira como costurava coisas comuns a temas íntimos. Elegante no que vestia, nas fotos em preto e branco, no aparente controle que mantinha, no modo de ver o mundo em perspectiva 


O tempo é a escola na qual aprendemos, ela escreveu, a certa altura do magnífico “O Ano do Pensamento Mágico”, que reli enquanto mastigava a tristeza de acontecidos  recentes para depois engolir, digerir e absorver, bem ao modo JD. Em preto e branco, com aparente controle, olhando em perspectiva, com Coca-Cola no café da manhã.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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